O Diário de um Acreano


E quem quiser que conte outra... (Diário de um Acreano – parte final)

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Última edição do diário semestral mais inconstante que já se viu. O mais lido pelos rumos do não sei onde. Direto da minha Pasárgada querida. E como invariavelmente a vida da gente obedece ciclos de começos e fins, venho através destes rabiscos me despedir. Pois é, depois de exatos sete anos, dois meses e 4 dias chegou a hora de dizer até breve para o meu Acre querido. Digo até breve porque, como se sabe e independente do que o futuro nos reserva, lugar que a gente ama a gente nunca diz adeus.

Em julho de 2003, o Acre caiu por um acaso na minha vida. Quando vim pra cá eu poderia ter ido para qualquer lugar do país. Era isso que rezava o edital do concurso que fiz para o Ibama na época onde dizia que, de acordo com a minha classificação e numa verdadeira roleta russa geográfica com mais de 200 opções de lotação nos 27 Estados desse Brasilzão todo, eu poderia cair em qualquer lugar. E pra sorte minha, vim despencar aqui no cantinho do país.

Abro parênteses: deixo claro que quando falo do Acre, falo também de Boca do Acre no Amazonas que, apesar de estar ali do “outro lado da portera”, na minha “geografia do afeto” faz parte do que costumo chamar de Acre. Fecho parênteses.

Pois bem, ao longo desse tempo todo o Acre veio se desnudando ao meu olhar mostrando-se uma terra repleta de gente briosa, com infinitas histórias pra contar. E foi um pouquinho disso que fui tentando passar aos meus nessas 66 crônicas do Diário que escrevi sobre o Acre. Sem a pretensão de querer representar toda a complexidade do Acre e da minha vida nesse tempo todo, os meus escritos tinham o objetivo de despertar nos meus, através do bom humor e da fina ironia, um olhar diferente sobre esse estado e a Amazônia.

De minha parte sou eternamente agradecido a essa terra pelas oportunidades que me abriu. Daqui, fiz minha casa e meu lugar. Ao meu jeito, vivi, sofri, ri, chorei intensamente esses 7 anos de descobertas que me transformaram numa outra pessoa. Hoje me recordo daquele Felipe de 2003, com alguns sonhos na cabeça, uma vontade enorme de aprender e se seduzir com o Acre. Hoje, apesar de estranhar um pouco aquele lá, vi que me obedeci: sou outra pessoa (quem não é 7 anos depois né?), completamente transformado e apaixonado por essa terra.

Ao Acre devo, em meio tanta gente que não teve a oportunidade de aprender as letras, o meu despertar para a escrita. Daqui levo o prazer de ter podido conviver com pessoas que eu nunca teria possibilidades de conhecer, como Seu Gerson, o Tota, Dona Dilurdes, o Seu Manduca, o Sabá, a Dona Graça, o Sindô, seu Raimundo, Dona Diva, Seu Dico entre tantas outras “gentes” da floresta tão “invisíveis” aos olhos do Centro-Sul e que me mostraram uma outra face da vida, cheia de dores e gozos. Ao Acre devo a descoberta da minha profissão pelo qual tenho tanto carinho. Ao Acre devo o prazer de conhecer e ajudar a construir a Reserva Arapixi que tanto me marcou e influenciou. Ao Acre devo a descoberta de grandes amores e de amigos que hoje da minha família fazem parte. Pensando bem e lembrando de tudo que vivi por aqui, do Acre levo, inclusive, a vontade de não ir.

Mas tudo bem, a vida nos exige passos e estes existem para serem dados. Hoje o passo seguinte está fora do Acre e não tenho dúvidas de que me ambientarei muito bem na nova morada. Faz parte também do “meu personagem” ser filho de várias terras e delas construir um pouquinho de mim. Os meus escritos ficarão como registro de um tempo que fui muito feliz, guardados comigo e no blog. Agradeço de coração a todos acreanos que souberam me suportar por aqui e saio com a certeza de ter me transformado também em um “acreano do pé rachado” e numa pessoa melhor. Espero ter ajudado um pouco e atrapalhado pouco. 

Estou indo e, ao contrário do dito popular, por favor, o último que sair abra a janela e a deixe aberta pra ventilar e trazer luz; troque a água pra não ficar parada muito tempo; varra a sala mas não jogue a sujeira pra debaixo do tapete; deixe uma luzinha acessa pra num ficar escuro de noite e deixe a porta encostada pra de chave não precisar... vai que eu volto!

Sua benção meu Acre!

 

28 de setembro de 2010
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, apaixonado pela terrinha e escrivinhador nas horas vagas.



Escrito por Felipe às 20h54
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O bulevar de Euclides (Diário de um Acreano 65)


 

“Tenho a crença largamente metafísica de que a nossa vida
é sempre garantida por um ideal, uma aspiração superior
a realizar-se. E eu tenho tanto que escrever ainda...”
                                                               
                                                                            Euclides da Cunha


ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais sumido da praça. Direto de euclidianas paragens. Como minha mãe já deve ter percebido, estive ausente do Diário por motivos de estar muito atarefado nos últimos meses. Mas sou resistente e sigo em frente. No entanto, depois de tanta bobagem ao longo desses 7 anos, dessa vez para escrever tive que fazer um resgate histórico pra ver se não me repito.  Curioso observar que nessa breve retrospectiva, chego a conclusão de que o Acre é muito mais do que venho sussurrando pra vocês nesse tempo todo. Mas tem um episódio que vinha me escapando e que não posso deixar de registrar aos meus e que de certa forma é desconhecida por grande parte do país: trata-se  da epopéia de Euclides da Cunha pela Amazônia e o Acre no início do século XX. Você sabia? Pois então, essa é uma parte da biografia do autor de Os Sertões pouco explorada por aí no Brasil, se é que o Brasil tem alguma ideia de quem foi Euclides da Cunha fora o seu clássico literário e seu trágico fim (morto pelo amante da mulher que, anos mais tarde, também matou seu filho) encenado na minissérie global Desejo (lembra?).

Euclides era um escritor, jornalista, sociólogo, historiador, geógrafo, poeta e engenheiro brasileiro (falam que gostava de pescar também) nascido em Cantagalo no interior do Rio em 1866. Republicano de primeira hora, sempre lutou pelo fim da monarquia brasileira, mesmo “trabalhando” para ela. Quando ainda prestava serviços no exército do império, durante uma revista às tropas, atirou sua espada aos pés do Ministro da Guerra em ato de protesto. Essa  rebeldia o custou a expulsão do exército de Dom Pedro II, além de ter sua matrícula cancelada na Escola Militar da Praia Vermelha onde estudava para se formar engenheiro. A partir daí começou a atuar na propaganda republicana pelo jornal a Província de São Paulo. Com a Proclamação da República em 1889, consegue voltar para o curso de engenharia onde o conclui em 1891.

Em 1897, durante a fase inicial da  Guerra de Canudos, Euclides escreveu dois artigos sobre o conflito que o valeram um convite do jornal O Estado de S. Paulo para presenciar o final do conflito como correspondente de guerra. Na época ele partilhava do entendimento que o movimento de Antônio Conselheiro tinha como objetivo a retomada da Monarquia no país sendo financiado por organismos internacionais, como muitos no Rio e São Paulo pensavam. Ao encontrar com um grupo maltrapilho de nordestinos liderados por Conselheiro, sendo massacrado pelo exército brasileiro do qual fez parte, se depara com a realidade do interior do Brasil, abrindo seus horizontes de percepção para um país que se construía "para dentro", amparado numa gritante desigualdade social. Dessa viagem transformadora ao sertão baiano, em 1902, nasce uma das obras primas da literatura nacional, que ele o chama de "seu livro vingador": Os Sertões. Este clássico o credenciou, no ano seguinte, para assumir uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

Após o sucesso de seu livro, Euclides retomou os trabalhos de engenheiro em obras de saneamento no litoral de São Paulo. No entanto, não era ali que ele queria se dedicar. Já enfadado com a rotina e com os conflitos familiares, Euclides queria mais. E ao saber que o Barão de Rio Branco, Ministro das Relações Exteriores da época estava organizando expedições demarcadoras dos limites brasileiros, Euclides se animou. A perspectiva de participar dessas missões fortalecia o seu “ideal de bandeirante” segundo suas palavras. Em carta ao amigo e crítico literário amazonense José Veríssimo, ele dizia que uma viagem à região seria “um meio de ampliar a vida, o de torná-la útil e talvez brilhantíssima”. E continuou: “Que melhor serviço poderei prestar a nossa terra? Além disto, não desejo Europa, o bulevar, os brilhos de uma posição, desejo o sertão, a picada malgradada, e a vida afanosa e triste de pioneiro”.

Ao conhecer o Barão em julho de 1904, logo mostraram afinidades que, não tardou muito, o fez ser escolhido e nomeado como chefe da comissão mista Brasil-Peru que faria o reconhecimento do Alto Rio Purus, com o objetivo de demarcar os limites entre os dois países. Dentro das expectativas dos dois estava a possibilidade de Euclides escrever uma nova obra-prima, o seu "segundo livro vingador" que, o autor já o denominava O Paraíso Perdido.

Em dezembro de 1904 Euclides segue para Manaus de onde sairia a expedição ao longo do rio Purus. A ideia inicial era a expedição sair rumo às cabeceiras do rio Purus em janeiro de 1905 para aproveitar a cheia dos rios. Mas em virtudes de vários contratempos logísticos e burocráticos, a expedição zarpou da capital amazonense apenas em 5 de abril, com três embarcações brasileiras e uma peruana. Esse atraso fez com que a expedição que percorreu cerca de 6.600 km de rios e chegou em lugares ainda hoje de dificílimo acesso, torna-se ainda mais dramática. Acontece que em maio começa a vazante amazônica, ou seja, ia “faltar” água no rio. Conhecendo um pouco do rio Purus como o conheço, arrisco dizer que uma viagem como essa, no início do século XX, com barcos a vapor e ainda mais com o rio seco, torna essa missão, que foi concluída com sucesso, ainda mais impressionante.

A Amazônia que Euclides se deparou foi aquela do auge da economia da borracha, quando esse produto rivalizava com o café o posto de primeiro lugar na pauta de exportação do país. Ou vocês acham que é a toa que a principal avenida do centro do Rio de Janeiro, na época capital do Brasil e que passava por uma reforma urbana importante, chama-se Rio Branco?

E assim como toda a história de acúmulo fantástico de riqueza, lá na sua origem está normalmente a mais vil forma de exploração do homem pelo homem. A “Amazônia euclidiana” estava privatizada em forma de grandes seringais, onde levas de nordestinos fugindo da seca e da fome, escolheram a floresta como forma de tentar uma melhor sorte em sua vida já tão severina. No entanto, o que encontraram na grande floresta foi algo similar a escravidão. E ao observar essa lógica cruel, Euclides já sentenciava: “O seringueiro é o homem que trabalha para escravizar-se”

Infelizmente Euclides não teve tempo de escrever e sistematizar o seu Paraíso Perdido. Em 1909 ele morre alvejado por Dilermando de Assis, amante de sua esposa. No entanto algumas obras póstumas foram realizadas, como o livro À Margem da História que reúne uma série de artigos escritos por Euclides e que fatalmente fariam parte de seu grande livro. Não é por acaso que o filme que fizemos para a RESEX Arapixi no ano passado recebe seu nome em homenagem a viagem do autor*.

Euclides talvez tenha sido o primeiro a descobrir um brasileiro que até então o Brasil não conhecia. Esse nordestino que ele conheceu no agreste e na mata, que tanto sofre pela falta de chuva e de amparo, do excesso da cerca e da violência. Ao cunhar a expressão “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, ele “inaugura” definitivamente o Nordeste na identidade brasileira. Desbravou um Brasil que tomava suas formas e o relatou com brilhantismo.

Observando sua trajetória, optando pelo sertão e pela mata, ele escolheu fazer de sua vida algo especial. Evidente que isso tem custos, envolve decisões que, no seu caso, lhe tirou inclusive a vida. Mas não posso deixar de fazer um paralelo com os dias de hoje, guardadas as devidas proporções, ao observar os que ainda fazem, de coração, a opção pela Amazônia ou qualquer outro lugar “fora do eixo”. Como naquela época (apesar do celular e da Internet), ela ainda envolve escolhas e perdas, partidas e chegadas de difícil, digamos, digestão. E quem sabe, cem anos depois, essas pessoas ainda sejam movidas pelo mesmo objetivo que guiava Euclides, de tentar fazer da vida algo “útil e talvez brilhantíssima”.

 

06 de junho de 2010

Felipe Cruz Mendonça

Servidor Público, aprendiz de Euclides e escrivinhador nas horas vagas

 

 

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* Das Margens da Historia as margens do Purus: vida e resistência na Reserva Extrativista Arapixi (2009, 22min). Acesso pela Internet pelo endereço: http://www.youtube.com/watch?v=9m1wYIlm6IM

OBS 1: As referências históricas deste diário foram tirados do livro Amazônia de Euclides: viagem de volta a um paraíso perdido de Daniel Piza.

OBS 2: Vejam fotos da expedição no endereço   http://ambienteacreano.blogspot.com/2010/03/euclides-da-cunha-no-acre.html

 



Escrito por Felipe às 03h09
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África que te quero preta (Diário de um Acreano 64)

 

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário, nada pontual, mais lido lá pelas bandas do qualquer lugar. Direto da Babilônia brasileira. E o acreano que vos fala acaba de completar 30 voltas ao redor do Sol... tropeçando aqui, errando menos ali, sou exatamente o resultado do que fiz de minha vida nestes tempo todo. Reclamar do quê?

 

Como não é sempre que acontece, fui buscar meus trinta por ali, na Cidade do Cabo, África do Sul. Uma viagem belíssima, com descobertas fascinantes em um país lindo. Pra começar, a África que conheci não tem nada a ver com os preconceitos que povoam nossas mentes: temperatura beirando 15ºC com muito vento (o que diminui ainda mais a sensação térmica), com uma infra-estrutura de cidade moderna com serviços de 1ºMundo e, o mais curioso (e assustador), uma África branca apesar de 80% daquela população ser negra. Uai, como assim Felipe?

 

Calma, permitam-me contar, em poucas linhas, a história contemporânea sul-africana para entender onde estão os negros. A África do Sul foi o país que experimentou a mais rigorosa, cruel e detalhista política discriminatória que a humanidade já viu. Num momento que o mundo experimentava certa euforia “de que tudo vai melhorar” logo após a vitória aliada na 2ª.Guerra Mundial (1939-1945), os sul-africanos remaram contra a maré. A partir 1948, instituíram uma política que foi conhecida como o Apartheid. A mesma determinava que a minoria branca (africaners) do país seria a classe superior, enquanto que a maioria negra teria suas liberdades individuais tolhidas para beneficio dos brancos.

 

E isso significava na prática uma segregação social, geográfica e moral jamais (ou poucas vezes) vistas. Os negros ficavam em espécies de guetos chamados bantustões, conhecidos também como “a sombra das cidades brancas”. Ou seja, enquanto a “cidade branca” tinha o melhor da infra-estrutura, os negros (muitos deles expulsos da “cidade branca”) se aglomeravam nessas periferias que nem nos mapas tinham o direito de aparecer. Pra se ter uma idéia da loucura desse regime, sexo entre as raças era proibido e os negros naquele país eram obrigados a andar com uma espécie de passaporte interno que os possibilitava (ou não) acessar o centro da cidade e os locais dos brancos em determinado período do dia... afinal, alguém tinha que lavar, passar e limpar.

 

Claro que o custo de implantação de uma política discriminatória como essa era alto demais, tanto no que diz respeito à manutenção da máquina pública racista quanto aos conflitos deflagrados em diversas partes do país. Um dos líderes do movimento contra o Apartheid foi Nelson Mandela, um ex-boxeador e ativista político que ficou preso por volta de 27 anos por causa de sua luta. Com o fim do regime em 1994, Mandela foi um dos principais responsáveis pela transição política no país. Com uma enorme habilidade de agregar opostos e uma generosidade humanitária sem igual, conseguiu unificar o país a beira de uma guerra civil em torno de uma nacionalidade que nem ao menos existia, tamanho era o ressentimento dos negros contra aquela pátria que não os respeitava. Eleito presidente, Mandela deu início a uma nova África do Sul.

 

Hoje, 15 anos depois do fim do regime de exclusão, as feridas ainda estão abertas. Apesar de inicialmente, pelo meu olhar de turista deslumbrado com um tanto de insensibilidade, as coisas parecerem dentro da “normalidade” (como no Brasil, onde branco é rico e preto é pobre), é inegável que o racismo sul-africano ainda está nas ruas. A condição subalterna dos negros na Cidade do Cabo salta aos olhos. Numa aproximação pertinente (ou grosseira, como queiram), o fim do apartheid abriu a "senzala" e permitiu a livre circulação de negros na "casa grande". No entanto, os negros mesmo "livres" ainda servem aos seus patrões brancos como antes.

 

A Cidade do Cabo é belíssima. Pra se ter uma idéia, do pouquíssimo que conheci na Europa, prefiro o tantinho que vi na África. No entanto, fico imaginando o custo social e moral do processo de construção daquela cidade. Seus traçados urbanos e todo o seu ordenamento territorial foram desenhados pelo apartheid. É uma clássica cidade branca do regime racista, ou seja: negros distantes do centro e brancos próximos do centro. E quando havia pretos por perto, eles foram expulsos pra longe. Caso interesse, procurem a história do Distrito 6 na internet. Retrata fielmente o que falo. 

 

Abro parênteses. Por favor, me permitam fazer uma comparação extravagante ou sem futuro como queiram. Não é raro que muitos de nós brasileiros digamos o seguinte: “Pelo menos lá o racismo era às claras, não esse racismo hipócrita que vivemos no Brasil”. Ou seja: racismo oficial seria melhor que o racismo hipócrita tupiniquim. Por mais descabida que seja a comparação entre o muito ruim e o péssimo, permitam-me discordar dessa máxima. A meu ver, dizer isso é achar que as políticas oficias de Hitler contra os judeus e tudo o que não fosse ariano, o escravismo oficial do Brasil ou qualquer outra política oficial racista que já tenha passado pelo mundo é melhor que o racismo velado. Não é. Recuso-me a acreditar que seja. Até porque, como preconceito não cai por lei, depois do racismo oficial, sempre surge a hipocrisia da sociedade. Se até hoje no Brasil, passados mais de 100 anos do fim do escravismo oficial, ainda temos as nossas chagas para curar, imagine o quanto a África do Sul, passados 15 anos, terá que passar. Fecho parênteses.

 

Para os negros do país e os vindos dos mais diversos países africanos, que estão muito presentes na sociedade da África do Sul atual, lhes cabe os trabalhos de garçom, atendente, pedinte de rua (ops!), flanelinha e outras opções tão dignas por um lado, mas no entanto menos respeitadas e valorizadas que as "profissões brancas" por outro. Hoje não é preciso mais ter o passaporte interno que permitia aos negros circularem (ou não) livremente pela cidade em determinadas horas. Mas o "passaporte econômico" (tão cruel quanto o outro) ainda os afasta dos locais nobres da cidade. Já vimos esse filme em algum lugar, né não?

 

Depois do fim do regime racista, a África do Sul não parou de crescer economicamente. No entanto, o abismo provocado entre negros e brancos naquele país, o fazem ser um dos países que possui a pior distribuição de renda do planeta. Apesar dos esforços do governo, os negros ainda têm muito que conquistar na sociedade sul africana. É uma luta que está apenas começando.

 

Mas no entanto, dito tudo isso, me apaixonei pela África do Sul. Ta aí uma boa recomendação: vamos para a África. Apesar da história recente, a país vem encarando os seus problemas (ou parte deles) com vontade de mudar. Com um povo de espírito leve e cordial, brancos e negros nos ganharam a cada interação confusa que fizemos com o nosso inglês de botequim. Aliás, não falar inglês lá é um detalhe que dificulta, mas paradoxalmente, nos aproxima ainda mais da generosidade africana ao mostrarem paciência e bom humor com a nosso “pobrema” de compreensão.

 

Pelo seu povo que é uma delicia e com gostinho de Brasil, pela sua história de erros e acertos, acho que temos muito que aprender com eles e eles conosco. Volto com vontade de conhecer as outras Áfricas multicoloridas. Aquele continente não é o que eu pensava e muito menos o que eu penso... deve ser muito mais. 

 

08 de novembro de 2009

Felipe Cruz Mendonça

Servidor Público que dobrou o Cabo da Boa Esperança e escrivinhador nas horas vagas

 

 



Escrito por Felipe às 21h39
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A Nobre que é uma Graça (Diário de um Acreano 63)

 

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário casual mais lido lá na Sobral. Direto da terra que maltrata, mas retrata. Sorriem, é dia da independência do dependente.

E viva o Pré-Sal, o tira gosto insosso do nosso futuro! 

Antes de qualquer coisa, peço desculpas às pessoas que reclamaram pela demora do diário dessa vez. Tá bom! Tá bom! Foi só minha mãe e meu pai... Mas confessa que você também sentiu falta... a vá! Eu, como um bom exemplo do nosso tempo, venho me dedicando mais ao trabalho do que as coisas lúdicas que nos dão vida e por isso estou longe das bobagens que escrevo. Mas hoje volto brevemente a este meu modesto e honesto palanque para contar das poucas coisas que sei e de muitas que nada sei.    

 

Meus amigos, dessa vez gostaria de falar de uma pessoa e, pra tanto, já começo caindo em lugar comum. Por mais óbvio que possa parecer (e não menos estranho de se pensar), o fato é que gente é gente em qualquer lugar (até rimou!). Gente, minha gente, é outra coisa (imprecisa), diferente das estrelas (precisas). Na Arapixi, por exemplo, tem os do bem, os do mal, os tristes, os felizes, os bravos, os resignados, os quietos e.... a Dona Graça.

 

A senhora Maria Nobre de Oliveira, mais conhecida como Graça, é uma pequena agricultora da margem do rio Purus, da comunidade Maracaju. Mãe de sete filhos, logo nova ficou viúva e teve que se desdobrar para criar suas crianças da forma que foi ensinada e da forma que inventou. Uma dessas figuras fortes, construída unicamente por força de seus braços, riquíssima de VIDA e de espírito.  

 

Sempre muito polêmica, falante e expansiva, lembro-me em 2004, quando estávamos começando o processo de criação da Reserva, que a Dona Graça era contra a criação. Afinal, o poder público mal passa por aqui e, quando passa, é para “proibir”? Sem muitas papas na língua dizia francamente “Isso aí, eu não quero não”. Tudo isso, pasmem, com muito respeito, generosidade e galinha caipira na panela pra nos receber. Lembro de uma avaliação que fizemos na equipe: “mesmo contra a Reserva, Dona Graça é uma das nossas principais aliadas.”   

 

Nas reuniões que realizávamos e realizamos com as comunidades, a presença da Graça é sinal de confusão e bate-boca. Aliás, desculpe. Bate boca pressupõem alguém discutindo com alguém. Mas com a Graça não precisa nem do outro. Ela pede a palavra, se levanta e ai é chumbo do grosso pra todo mundo: é o IBAMA que não fiscaliza, é o peixe que acabou no lago, é o vizinho que caçou com cachorro, é a casa do INCRA que não chega e, não alivia nem pro filho, “esse menino bebe que é uma desgraça”.     

 

Além de tudo isso que já é muito, talvez a graça que tem a Graça é que ela é poetisa e compositora. Suas histórias de vidas são permeadas por causos contados através de rima e música. Ela compõe sua própria trilha sonora. Sentar com a Dona Graça depois da janta é garantia de muitos causos da beira do rio e boas risadas. E pra todas as suas histórias tem sempre uma música ou um versinho pra ilustrar. Como da vez que uma família de vizinhos começou a espalhar boatos dos seus filhos e assim nasceu:

 

Galo de campina, “rexinol” de laranjeira

Não “assubo” na tua casa

Porque tem muita ladeira

“Seus cachorro” são muito bravo 

E sua mãe é faladeira.   

 

Isso é uma delícia, né não?

Por não saber ler nem escrever, suas lembranças é o seu caderno de anotações. As letras de suas músicas e versos são organizadas numa estante que, infelizmente, um dia vão se apagar. Vimos ajudando a colocar no papel suas músicas e seus causos pra que isso não se perca. Talvez tenha sido ela, com outros poetas da Arapixi, uns dos principais incentivadores dos versos que venho me arriscando a escrever de uns tempos pra cá. 

 

No mais, acredito que a Dona Graça é uma personagem da Maria Nobre. Pouco conheço desta última. Acho que somente a carteira de identidade mesmo. A Graça é uma espécie de máscara, uma fantasia de carnaval alegre e comunicativa da Maria. A Nobre, talvez, esconda suas dores e tenha muito o que chorar e lamentar pela vida difícil e cheio de privações que leva. É de se imaginar que a Dona Graça reinvente a Maria Nobre todo dia para que ela não caia de cansaço e desanime.

 

Enfim meus amigos, resgatar a história desses bravos brasileiros anônimos e "invisíveis" aos olhos do Brasil "independente", só nos mostra o quanto somos dependentes ainda da falta de respeito para com os nossos filhos. A Nobre e a Graça, em meio a tanta indiferença e dificuldades impostas pela natureza e pelo descaso social, fizeram uma clara opção por ser feliz e se comunicar. E, por incrível que pareça, conseguem.  

Essa Nobre é uma Graça! Sua benção! 

 

06 de setembro de 2009

Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, fã da Graça e escrivinhador nas horas vagas.

 

No Youtube tem 3 vídeos da Dona Graça cantando músicas de sua autoria. Tem até cantando Fuscão Preto.

http://www.youtube.com/watch?v=gv7PKy6oF7s

http://www.youtube.com/watch?v=BUQaRI2-Mqc

http://www.youtube.com/watch?v=3v_dh1qisuI

 

 

 



Escrito por Felipe às 08h57
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O Estado sou eu... e tira a mão daí! (Diário de um Acreano 62)

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do Diário mensal mais trimestral do Acre. Direto da aba do chapéu. E a última nem tão última assim aqui no Acre foi que não conseguimos ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Vou te falar viu! Esse Brasil tá de sacanagem com a gente. Nossa proposta era boa, caramba! Só faltava estrutura e dinheiro... mas estávamos cheio de boa vontade! Ninguém conta isso não?

*

Meus amigos, ando em falta com o meu prazer de tentar escrever. Mas um assunto que por hora me mobiliza, na medida do possível, é tudo isso aí... sacou? E dentro disso aí tudo, nada me faz preocupar tanto do que esse tal estado de coisas (hoje eu to tão claro quanto uma mulher na TPM né não?). O fato é que ligo minha metralhadora giratória e acerto essa bobagem que ganhou ares de verdade absoluta e de imexível que é a tal da democracia. Isso mesmo! Minha Geni de hoje é a falência da tal democracia representativa. Você outorgar às pessoas o direito de lhe representar sobre qualquer coisa e qualquer assunto que o valha é muito sério. Ainda mais nesse ambiente do "vem cá minha nega que eu quero farrear também" (minhas comparações hoje estão ótimas!). É por isso que eu lembro sempre: enquanto o público for visto como privado pelos representantes públicos que são eleitos pelo público brasileiro, os interesses privados sempre sairão por cima do interesse público. Entendeu? Nem eu!

 

Por isso mesmo, enquanto ninguém encara o público como público eu exijo limites a essa bagunça democratica. De agora em diante eu só voto com restrição de atuação. Isso mesmo! Eu quero (ai como sou autoritário!) que a urna eletrônica me ofereça opções do que aquele legislador poderá me representar. Por exemplo: não outorgo a ninguém o direito de discutir o seu próprio salário. Não quero, não quero, não quero! Dou até piti! (ui!!!). Quer outro exemplo? Eu proíbo, terminantemente, que os deputados tenham o direito de darem terras para grileiros na Amazônia. Se for preciso ponho até tachinha no trono do Sarney! Outra coisa: eu não elejo Deus e sim um mero deputado, por isso mesmo, não deixo que ninguém mude o horário do por do Sol em meu nome. Faço até beicinho...quer ver?  

 

E sabe do que mais: às favas isso tudo aí! Me perdoem o destempero, mas escrevo sobre isso, principalmente, pelo absurdo que acaba de acontecer no Senado... aquele cabaré no formato de cuia que fica em Brasília. Hoje, dia 16, foi aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado o projeto de lei do senador tagarela da oposição, o senhor Arthur Virgilio (PSDB-AM), que acaba com os fusos horários no país. A matéria ainda será analisada em caráter terminativo pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Se aprovado, o projeto de lei segue para apreciação da Câmara... aquele bordel do lado do cabaré.

 

Vocês devem lembrar o quanto o pobre autor dessas tortas linhas se mostrou indignado a alguns diários atrás pela mudança do fuso horário do Acre de forma arbitrária e "televisiva", eu diria. Todos nós acreanos tivemos que adiantar o relógio em uma hora. Agora o nobre senador do Amazonas, que na verdade fica em Brasília e não acorda no Amazonas e por isso tá se lixando pra quem acorda e dorme no Amazonas, propõe que todos fiquemos com o fuso de Brasília. Ou seja, no Acre 8 da manhã estará de noite.     

 

Os argumentos do pobre senador, é que "o processo integraria diferentes mercados, além de facilitar transmissões de televisão, rádio e horários de viagens". Ou seja, o tal do mercado influindo mais uma vez no tal do humano e, mais uma vez, o lobby da Rede Globo, altera os rumos e os "durmos" do país. E ele complementa: "O interlocutor do governo na Casa, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse que o governo federal e os dos Estados são inteiramente favoráveis ao projeto."

 

Peraí? Quem é que tá a favor disso? Os Estados? Quem, ora bolas, são os Estados? São os mesmos eleitos que se outorgam o direito de serem mais reais que o rei e que têm a prepotência de acharem que são o Estado, num arroubo "generoso" aos moldes de Luis XIV, que num acesso de "humildade", disse há um tempo atrás que "O Estado sou eu"?

 

Perceberam? Tudo se passa em um nível em que não se pergunta a quem de direito e a quem irá ser afetado pela mudança de horário, pelo "justo" motivo desses senhores serem os representante democrático escolhidos ou comprados pelos seus currais eleitorais. Não sei quanto a vocês, mas não elegi ninguém pra mudar a hora do nascer do sol.

 

Por isso, que a saída pro Acre é pedir a independência do Brasil... como eu sempre digo. O Brasil atrasa o Acre adiantando sua hora. Com a nossa independência, teremos nossa hora de volta, o nosso Sol as 5 e meia da manhã e a Copa do Mundo vai ser nossa e a final em Santa Rosa.
Sou acreano, não há quem possa! 

 

16 de junho de 2009
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, escaldado e escrivinhador nas horas vagas



Escrito por Felipe às 22h47
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Cordel de um Mundo Enguiçado (Diário de um Acreano 61)

 
                I
ATENÇÃO! ATENÇÃO!
Mais uma do diário mensar
Mais lido lá no sertão
Onde nóis vive a cantar 
Com a viola e o violão
Peço licença pra nóis brincar
É uma grande diversão
 
              II
Peço a musa do improviso
Que me ajude com coração 
Porque poeta não sou
Vê se não deixa na mão!
Ando escrevendo uns versinho
Sem nenhuma pretensão
 
             III   
Eu vou dizer o que assuncede
No Brasil e no Mundão
Me descurpe a honestidade
Mas como diz o refrão
Cada qual tem sua bunda
O seu time e opinião
 
           IV
Aqui por essas banda
Nóis continua como nóis quer
O Acre é uma beleza
Até a Copa quer
Mas com um IDH desses
Quem será que bem nos quer?
 
             V
Também mexeram com as letra
Marrapaiz que chateação
A língua que se fala
Tá na boca do povão
Acreano agora é com i
Não é Acri que escreve não
 
            VI
E no Congresso Nacional
Ai meu Deus que confusão
O Sarney volta reinando
Com o Temer, seu capachão
Novidade no Congresso?
É coisa que não tem não.
 
             VII
E a menina violentada
Deu até excomunhão
O arcebispo insensível
Alguém pediu sua opinião? 
Pra ele aborto é pecado
Estupro é só perdão
 
            VIII
O planeta tá em crise.
No sociar e no naturar
Agora é a economia
Que deu de piorar
O mundo não aprende
Ave cruz! É de chorar
 
              IX
E o tar mercado mundiar
Oh! bicho doido de aturar!
Quer os lucro só pra eles
Sem o povo amparar
Agora volta doidinho
Pro Estado acalentar
 
              X
Disseram que o remédio
Era o tar do globo grandão
Hoje nóis fala com a India
Quase que na pensassão
Mas a fome ainda dói
Comé que fica a digestão?
 
              XI 
Me disseram um dia desses
Que o tar de Bush é de lascar
Foi embora em janeiro 
Pra nunca mais vortar
Mas será que com o Obama
O mundo vai miorar?
             
          XII
O mundo é desiguar
Até o tempo deu de pirar
Enquanto uns de internet
Outros na rabeta a navegar
Até a natureza revortada
Com seus terremoto e enxurrada
Castiga, dói e mata
Quem não tem onde morar
 
             XIII
Peço ao nosso Senhor
Que me ajude na despedida
O mundo carrega a dor
Deixando as moça aborrecida
Justamente no seu mês
Viva as mulher aguerrida!
 
             XIV
O meu nome é Felipe
Agora tenho que ir
Sou servidor de profissão
E escrivinhador pra iludir
Me descurpe os poetas do sertão
Minha intenção não foi mentir
Mas mostrar pra minha gente
Que um cordel assim imprudente
É uma delicia de se ouvir
 
 
19 de março de 2009
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, cordelista canastrão e escrivinhador nas horas vagas


Escrito por Felipe às 17h35
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Com esse acordo, não tem acordo! (Diário de um Acreano 60)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido no SOZA. Direto do meu Acre querido, a terrinha onde os agentes penitenciários começam o ano com uma reivindicação sensacional! Acreditem vocês que os mesmos querem lutar pelo direito de dormir durante o plantão noturno. Já imagino até a cena:
- Vem pessoal! Vamos fugir por ali e não façam barulho. Se o carcereiro acordar vai melar nossa fuga e o pior: vão querer hora extra por ter que trabalhar no plantão deles e vão onerar ainda mais os cofres públicos.
HA!HA!HA! Etâ bandido consciente! HA!HA!HA!
Esse meu Acre, como diria a Nem de Madureira, é uma bença!
*
Meus amigos, fora a gracinha acima no quartel, começo o ano irritado e já lançando uma nova campanha com o título: "Esqueçam o Acre, peloamordeDeus". Vocês sabem o que aprontaram com a gente agora? Na calada da noite da passagem do ano, com esse novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que visa preservar a "integridade" da língua de Camões, acreano passou a ser escrito com i, transformando-nos num esquisito e indigesto acriano. Nos tiraram a alegria contagiante do eeeeeee! e nos deixaram com um ressabiado iiiiii!

Segundo o novo acordo, "escreve-se com i, e não com e, antes da sílaba tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)];"
Entenderam? Nem eu.  

Lendo essa explicação, começo a me achar um prodígio por ter aprendido a falar, ler e escrever em português. Só fico imaginando como deve ser um i digital agora que descobri que existe o i analógico. Ha! Ha! Ha!

Em que pese minha santa ignorância vernácula e a minha eterna má vontade crônica que tenho com tudo que não concordo, eu pergunto: mas pra quê mesmo uniformizar a língua portuguesa entre os países de língua portuguesa? Qual é o problema, por exemplo, de Moçambique e Angola tomarem um rumo de uma língua afro-portuguesa, se lá o português deles já é diferente do nosso? Afinal de contas, a língua é uma coisa viva, principalmente, na boca das pessoas. A partir do momento em que a língua falada não segue mais os rumos da língua escrita, por que então modificar uma gramática já tão complexa pra uniformizar uma língua que já não é mais uniforme? Além do que, se formos observar o índice de alfabetização dos países de língua portuguesa no mundo como o próprio Moçambique com 62% de analfabetismo e Guiné Bissau com 56%, esse acordo corre risco de naufragar não por desobediência, mas por falta de quem cumpra-o.

E essa mudança foi atrapalhar quem? Quem? O Acre... a Geni brasileira! Parecem até que estão de marcação com a terrinha ultimamente. Só em 2008 o Acre já mudou de hora, cresceu lá pros rumos do Amazonas e agora mudaram nossa identidade. Por mais que alguns relaxados já falassem com som de i, já vou dizendo que o acreano escrito com qualquer outra letra que não o e, não tá falando com a gente. Eu hein! Com essa onda de mudanças, já tô até vendo a hora em que vão proibir de colocar o tucupi no tacacá, a farinha no feijão e, quiçá, vão inventar de mudar o nome do Acre pra Docinho, alegando que Acre é um nome muito azedo. Faça-me o favor!

Por isso, eu peço encarecidamente a todos: esqueçam do Acre! Deixa nóis aqui no cantinho, quietinho, bunitinho e caladinho. Ah! Não tem gente que vive falando que o Acre não existe? É isso mesmo pessoal. O Acre de fato não existe. Na verdade isso tudo que venho falando pra vocês nesses 6 anos eu escrevo em Copacabana, mais ou menos ali no posto 1, na Prado Júnior. É tudo coisa da minha cabeça... eu juro! Era uma pegadinha...hã?hã? Engraçado né? Aonde já se viu, falar que o Acre existe. Só doido mesmo! O Acre é uma espécie de Atlântida da floresta: todo mundo fala que existe, mas nunca ninguém viu. E como ninguém viu, não precisa ficar importunando, né não?

Ai Brasil: mira em nóis, mas erra!


17 de janeiro de 2009
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, acrEano e escrivinhador nas horas vagas

Leia também o Picaretas da Távola Redonda
www.picaretasdatavola.blogspot.com



Escrito por Felipe às 20h10
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Isso precisa de uma vida (Diário de um Acreano 59)

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do logo ali. Direto da terra do delegado Protógenes, aquele que provou por A mais B, os crimes de corrupção do Sr. Daniel Dantas, mas que no momento, por motivos de força maior, está passando por uns probleminhas por ter investigado o sr. Dantas que, como todo mundo já sabe, não poderia ser investigado. Afinal de contas, com a mídia na mão e com o presidente do STF como advogado, quem vai pegar Daniel Dantas?
*
Mas como, por incrível que pareça, não só de corruptos vive o Brasil, estive há pouco vivendo e convivendo por 16 dias uma vida que quase nada tem a ver com a minha, mas que me diz muito do que espero do futuro do meu país e do planeta. Foi um período de diálogo e convivência com um modo de apropriação da natureza que diferente do modelo devastador da nossa sociedade ocidental capitalista-industrial-monetária-etceteraetal, na qual estou inserido até a medula.

Passei todos esses dias na casa do Seu Antonio Souza de Queiroz, mais conhecido por Tota. Diferente de tantas outras expedições anteriores, quando íamos para floresta parando de porto em porto, visitando as famílias sem o tempo necessário pra responder perguntas básicas para um gestor de Reserva Extrativista, tal como "do que mesmo eu tô tratando?", desta vez tive o tempo e, principalmente, interesse (é preciso meu amigo...) de experimentar um pouco da dor e da delícia de se viver em uma condição tão, aparentemente, adversa.

O Tota mora na boca do igarapé Sossego, no rio Purus, mais ou menos no meio do caminho entre a cidade acreana de Sena Madureira e a cidade amazonense de Boca do Acre. Ou seja, ele está há dois dias de qualquer um desses centros urbanos e, morando junto com ele, estão todos os problemas causados pelo incrível "poder de invisibilidade" que essa população possui, como falta de educação, de saúde, de segurança, de respeito e todas essas "frescuras" que deviam ser universais a todos os homens.

O Tota é casado com a Dona Maria de Lourdes, mas que é conhecida mesmo como Dilurdes. A principal característica da Dona Dilurdes, além de todas as características que tem uma pequena agroextrativista e dona de casa, é o seu sorriso tão acolhedor e maternal que não tive dúvidas: adotei como minha mãe da mata. Tinha também os filhos Ediney e o Antônio. O Bimbinha, apelido do Ediney, é um menino muito bonito, com seus 16 anos que, por não ouvir, também não conseguia falar. Mas alegria e sorriso no rosto não lhe faltavam não. Já o Caçulinha, como Tota chama o Antônio, é também um moleque espertíssimo, cheio de vida e de igual sorriso franco. Aliás, é uma família, que alguns diriam, tem uma luz muito especial.

Foram dias de uma troca de aprendizagem enorme entre mim e aquelas pessoas: de um lado quem vos escreve, com uma visão de mundo e algumas coisas que teve a oportunidade de aprender a fazer (como ler, por exemplo) para ensinar e, eles, rindo do meu sem jeito para descascar uma macaxeira, e me ensinando a viver aquela vida cheia de significados e saberes. E, meus amigos, não têm jeito: é só nos deparando com o diferente, que conseguimos nos enxergar, refletir sobre quem somos e, quem sabe, mudar.  Eu acho que venho mudando nesses anos todo de Acre.

Um episódio curioso em que vivi naqueles dias foi quando eu estava no lap top organizando fotos e os dados que precisávamos levantar para o trabalho, quando o Tota foi ver o que eu estava fazendo e fascinado afirmou enfaticamente:

"Felipe, pra mexer nesse bicho ai precisa de um estudo."

Achei curiosa aquela afirmação dele. Colocado assim no singular, talvez não dê conta de toda a complexidade que é a formação escolar e acadêmica de uma pessoa. Toda aquela acumulação de estudos realizados, e vem o Tota chamando "apenas" de estudo.

No entanto, logo me lembrei que para ele foi negado qualquer tipo de escola formal. Ao Tota foi negada a possibilidade de estudar, ainda que a educação seja direito de todos assegurado na Constituição. Lá fala: "todos tem direito a educação", e não fala nada do tipo "todos, menos os que moram longe pra dedéu". Ali percebi que para ele, o estudo é tão inacessível que até mesmo no singular, ganha conotações plurais.

De minha parte aprendi muito com aquela família. Hoje já sei plantar e descascar uma mandioca (sem maldade, por favor!), escolher bem a maniva pra que vingue melhor depois, estou aprendendo a dirigir canoa no rio. Ainda não aprendi a jogar tarrafa pra pescar, mas já fui motivo de risada ao tentar, aprendi que rezaderia pode ser melhor que hospital, que em alguns lugares a castanha já começa a dar em novembro mesmo e que domingo, segundo o Tota, é dia de ficar em casa pra não correr o risco de não saber mais voltar. Enfim, foi um período de várias pequenas lições que formam esse modo de viver diferente do meu tempo (internet X canoa) e de como costumo levar minha vida (urbana X rural). Várias lições que não se aprende na universidade ou em qualquer outro lugar que não seja vivendo.

E por isso, ao me despedir do Tota e da Dona Dilurdes, reconhecendo todo aquele saber acumulado com o dia-dia na mata, afirmei também sem dúvida nenhuma:
- Tota e Dona Dilurdes, pra saber de tudo isso ai, precisa de umA vida. Sua benção meus amigos!


27 de novembro de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, com estudoS, atrás de  umA vida e escrivinhador nas horas vagas.


Se você quiser conhecer um pouco mais o Tota, veja o vídeo abaixo onde ele conta um pouco de como é a vida do seringueiro...

 



Escrito por Felipe às 19h43
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Meia dúzia de iluminados (Diário de um Acreano 58)

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido da terra da ABIN, o órgão de espionagem que não pode, por força de lei, grampear ninguém. AH! AH! AH! Só rindo mesmo... saca o time de futebol que não pode fazer gol? É por aí... Direto da terra do Sr. Gilmar Mendes, o nosso presidente do STF, que nas horas vagas, faz um bico como advogado do corrupto Daniel Dantas. Afinal de contas meu amigo, você está no Brasil e isso já não devia te soar estranho.

*
E o Pré-Sal? Tão dizendo por aí que o petróleo do pré-sal vai salvar o Brasil... Ai meu Deus! Lá vai nóis de novo numa canoa furada. Não sei quanto a vocês, mas pra mim pré-sal é tira gosto insosso.

Em pleno avanço das tecnologias que necessitam cada vez menos de derivados de petróleo (carro elétrico ou a hidrogênio, por exemplo), o Brasil celebra seu elefante branco como se, por causa dele, tiraremos o pé da lama, trazendo o milagre da redenção do tão propalado país do futuro. Onde foi mesmo que o petróleo trouxe ganhos para a população toda de um país e não a uma meia dúzia de petro-empresários? Pra onde estamos indo mesmo?

A verdade é que ainda vivemos de degradar o planeta. Nossa matriz energética baseada em carvão e petróleo é a principal fonte de todos os nossos pesadelos ambientais e que, hoje, coloca a vida da humanidade em risco, como o aquecimento global.

Esse ano no Acre, esta sendo de longe, o ano mais quente que já vivi. As causas das altas temperaturas ainda é alvo de várias divergências. No entanto, não dá para negar que o planeta está ficando cada vez mais quente. Essa secura do tempo e seu calor, já aumentaram as mortes por fome na África. Ai você me pergunta: "Mas está faltando comida no mundo para os africanos estarem morrendo de fome? Aí eu te respondo: "Claro que não meu amigo! E quem foi que disse que comida é pra matar a fome? Comida é comódite pra gerar lucro pra meia dúzia de afortunados... você já devia saber disso!"

E a tal da economia? Estamos acompanhando nos últimos dias uma crise sem precedentes na economia mundial, motivada por uma meia dúzia de irresponsáveis banqueiros privados norte-americanos que resolveram fazer dinheiro em cima de títulos que poderiam virar dinheiro, mas que ainda não eram. Advinha o que aconteceu? Não viraram. E você sabe o porque isso aconteceu? Porque existe uma política econômica propalada como a salvação do mundo todo chamada de liberal ou neoliberal. Essa corrente prega a total liberdade do sistema econômico, não permitindo qualquer intervenção estatal na economia. E foi exatamente pela falta de regulamentação do Estado na economia, que estamos reféns de meia dúzia de irresponsáveis senhores "donos do mundo" que vivem de especular no mercado financeiro. Sabe o que acontece quando o tal mercado está em apuros? Corre rapidinho pro colo dos cofres públicos atrás de socorro. Vejam vocês que o governo estadunidense preparou um pacote de medidas na ordem de 700 bilhões de dólares PÚBLICOS para socorrer o mercado financeiro PRIVADO da bancarrota total. Aí eu te pergunto uma coisa: alguém de vocês já teve acesso aos lucros de algum grande banco? Sei lá, por exemplo: o Banco Itaú já te pagou um picolé que seja? Não? Mas pode acreditar: quando o negócio apertar pro lado deles, eles vão te pedir arrego. E o pior: você não vai negar!. É exatamente isso que está acontecendo nos EUA: o lucro do mercado é de meia dúzia, mas seus prejuízos são de todos. O Brasil já passou por isso também no governo FhC, com o famigerado PROER, que injetou cerca de 30 bilhões de dólares nos anos 90 para salvar meia dúzia de banqueiros da falência, entre eles figuras nada idôneas como Salvatore Cacciola e Daniel Dantas.

Aliás, me permitam um parênteses: Vocês sabem quem é o homem mais rico do Brasil? É o senhor Eike "Luma de Oliveira" Batista. Sabe de onde ele tirou sua riqueza? Garimpando na Amazônia através de trabalho escravo e conluios com governos corruptos. Perceberam? A maior fortuna do Brasil (cerca de 16 bilhões de dólares) é feita ilegalmente detonando a floresta que é de todos e limitando o lucro que é só dele.

Mas ai você me pergunta; "O que tem a ver o pré-sal com aquecimento global, com fome na África, com o Mercado Financeiro e com o ex da Luma?"Sabe o que é? É que to cansado desse mundo feito pra meia dúzia de "escolhidos". A irresponsabilidade humana com a economia, com a fome do próximo e com a natureza passou de qualquer limite. Hoje, as grandes decisões do mundo estão na mão de não mais do que 500 pessoas no mundo inteiro. São elas que decidem para onde vai ou sai o dinheiro, quem vai ou não vai comer, quem entra ou não entra em guerra...enfim, a humanidade de 6 bilhões de gente está na mão de 500 (quinhentos) pessoas que surfam a favor de seus interesses políticos e econômicos. Ou seja, meia dúzia de iluminados!
Etâ mundo véio com portera... e sem moral!

01 de outubro de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, com ressaca civilizatória e escrivinhador nas horas vagas.



Escrito por Felipe às 01h34
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O Diário concorrendo a prêmio literário...rimou!

Atenção meu amigos andantes por esse espaço, coloquei três crônicas de minha autoria para concorrer como melhor crônica do site www.literaturalivre.com.br. Para que possa ter algum sucesso, precisarei do apoio de vocês. Entrem e votem nas crônicas no endereço que deixarei logo abaixo.

Duas das crônicas escritas, tirei do Diário. Outra foi do nosso blog Picaretas.
Deêm uma olha... ah! pra vota tem que se cadastrar no site.
Fica também o incentivo pra que publiquem seus textos também.

Muito obrigado....
Felipe, o carioca do Acre

O amor está em crise... Viva o amor!
http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=262&titulo=O%20Amor%20está%20em%20crise...%20Viva%20o%20Amor!

Se tu não vir, tem como eu ir?
http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=263&titulo=Se%20tu%20não%20vir,%20tem%20como%20eu%20ir?

Vocês precisam ser de Hollanda
http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=264&titulo=Vocês%20precisam%20ser%20de%20Hollanda



Escrito por Felipe às 12h55
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NelsonRodriguiando (Diário de um Acreano 57)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido em Macapá, a terra do riozão. Nóis tarda, nóis falha, mas nóis vorta! Direto da terra da Pecuária: a cultura nacional.... MUUUUUU!!!!!!! E vocês sabem como era anunciada a terrinha nos jornais paranaenses na década de 70? Acre, o filé mignon da Amazônia. E dá-lhe boi na floresta! E sabe como era Rondônia? Rondônia. Calma! já já você chega no Acre! Ha!Ha!Ha! Rondônia, o colchão duro da Amazônia.
*

Meus amigos, antes de tudo, queria pedir desculpa pela demora do número 57 desse fracassado diário que vos perturba mensalmente. O quê? Não perceberam o atraso? Tudo bem, engulo mais essa! 

A verdade é que o Gomes, o sujeito que me fornece as crônicas, começou a cobrar mais caro pelas mesmas, dizendo que tava com o tempo apertado e que não podia mais se comprometer em escrever as bobagens que publico. Ainda veio com um papo que já não achava justo eu assinar os textos dele e que agora ele queria aparecer também... saca o compositor que quer cantar? Mais ou menos isso... aliás, o Gomes é o primeiro compositor de crônicas que eu conheço. Ele compõe e eu, com a minha tremenda cara de pau, interpreto. Percebam: não é plágio, é interpretação CRÔNICA! Normal, né não? Agora ele vem reclamar.... vê se pode! Como se eu não pagasse caro pelas histórias... e como é caro!

E mesmo dando uma puxada no saco do Gomes, ele de fato me deixou na mão esse mês. Mas para não deixá-los em paz ou a ver navios, me coloco o desafio de conduzir por conta própria este mensário diário.

Por isso vou lhes contar uma história. Como vocês já devem ter percebido, o Acre é um Estado onde histórias deliciosas acontecem. No entanto, esse acontecido que contarei a vocês é uma tragédia. Aliás, parece ter saído da cabeça de Nelson Rodrigues. Quem me conta ela é o Abrahim Faraht, o Lhé.

O Lhé é uma figura ímpar em Rio Branco, uma espécie de Profeta Gentileza do Acre. Uma lenda viva da terrinha, de uma generosidade e bondade tremenda... um patrimônio acreano.

Ele conta que no início da década de 40, no Acre, o presídio de Rio Branco ficava localizado no centro da cidade onde há pouco tempo funcionava a Prefeitura. O Adolfo, um agente carcerário do local, era um sujeito aparentemente normal e que era apaixonado pela Lindalva. A Lindalva era professora do grupo escolar e passava diariamente na frente do presídio a caminho de casa. Um belo dia Adolfo resolveu declarar o seu amor a Lindalva. Ela, no entanto, disse a ele "que seu coração já tinha dono". Adolfo, porém, não aceitou muito bem a rejeição da professora e resolveu não deixar barato a história. 

Havia um preso na cadeia com o nome Januário, que era de Feijó, no interior do Estado. Adolfo começou a dizer para Januário que conhecia uma mulher que estava interessada nele, mas que não se apresentava a ele por se sentir envergonhada. Januário ficou encantado com o que ouviu, afinal, ele era um presidiário solitário que pouco recebia visita da família do interior e, convenhamos, alguém se interessar por um preso não é lá muito comum (ou é?).

Aquela história começou a acalentar o pobre detento nos seus dias de solidão no cárcere. Vendo a empolgação de Januário, Adolfo começou a escrever cartas para ele como se da suposta amada fosse. Eram cartas apaixonadíssimas que falavam de amor para sempre e prometendo esperar o tempo que fosse por ele em liberdade. Adolfo começou a escrever cada vez mais, deixando Januário, já apaixonado pelo seu amor misterioso aquela altura, cada vez mais inquieto atrás de saber quem, afinal, era sua paixão secreta.

Lindalva, quando passava em frente à cadeia, via sempre Januário também trabalhando na praça, nos serviços de manutenção e cumprimentava-o normalmente com "bom dia", "boa tarde", como a boa educação pede. Aliás, pelo que o Lhé conta, as celas naquela época tinham janelas para rua e Lindalva educada que era, cumprimentava inclusive os detentos. Era uma "relação" que nunca havia passado desses cumprimentos formais do dia-a-dia. 

Com a insistência de Januário em saber quem era sua amada, Adolfo resolveu lhe falar. E, em mais um dia que Lindalva passava pela rua, Adolfo a apontou a Januário e disse: "Aquela é a sua amada".

Januário ficou boquiaberto por nunca ter suspeitado de Lindalva, aquela moça que passava pela rua todo dia e que nunca demonstrou um olhar mais insinuante para ele. Enfim, ela deve ser acanhada e está com medo de se declarar a mim, pensava ele. E Lindalva, nem suspeitava de tal invenção sórdida de Adolfo.

Com a revelação de quem é seu grande amor, e cada vez mais entusiasmado e acalentado pelas "cartas de amor de Lindalva" que não paravam de chegar, Januário foi ficando cada vez mais apaixonado por ela e inquieto com a situação. Ao mesmo tempo em que ela não declarava abertamente quem era, Januário também não queria demonstrar que sabia do "amor de Lindalva", por medo, timidez ou pelo simples fato daquela história ser tão importante para ele durante aqueles meses, que ele tinha medo de estragar tudo. 

Adolfo ao perceber que a trama começava a tomar o rumo que sempre imaginou, vendo Januário cada vez mais obcecado por aquela história, resolveu dar o desfecho a farsa. Escreveu uma outra "carta da amada" para o preso, porém, acabando com tudo, dizendo que "seu coração já tinha outro dono", como Lindalva havia dito a ele, e que não esperaria mais pela sua liberdade. 

Aquela carta transtornou o coitado do Januário, fazendo-o sofrer de amor por muitos dias. No entanto, depois de um pouco já refeito de sua decepção amorosa, Januário resolveu se vingar: "Se ela não vai ser minha, não será de ninguém." E no dia 25 de novembro de 1941, enquanto capinava a praça, e Lindalva fazia seu percurso diário em frente a delegacia retornando para casa onde sua família estava nos preparativos para o seu casamento que aconteceria dali há um mês, ele pegou o facão com que trabalhava e atacou Lindalva na traição, matando-a ali mesmo.

O episódio correu a cidade toda, transformando-os no assunto do final daquele ano, onde todos queriam saber sobre Januário e Lindalva, a trágica história de amor onde Lindalva morreu de amor... mesmo sem saber! 

13 de agosto de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, nelsonrodriguiando e escrivinhador (ops!) interprete de crônicas alheias nas horas vagas



Escrito por Felipe às 02h01
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 Local ou Global? Eis a questão... (Diário de um Acreano 56)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do não sei onde. Direto da terra do Tiãozinho Hora Certa... o nosso Odorico Paraguassu acreano. Em um delírio de "humildade extrema", mandou a real: "Vamos deixar de lado os entretantos e vamos direto aos finalmente. Eu quero que a hora do Acre mude e assim será." Viva Odorico! Viva! Viva! É assim que eu gosto de político: muda a hora do pôr do Sol na caneta... sensacional!

- Mas Felipe, isso não está certo não. Uma medida dessas tinha que consultar a população que será afetada pela mudança das horas. Isso altera todo o dia-a-dia das pessoas.
- Lá vêm os pessimistas. Ô povinho negativo... deixa que o homi sabe o que faz! O Tiãozinho joga o povo pro futuro e vocês ficam ai garrado no passado! Faça-me o favor! Tô certo ou tô errado?
AH! AH! AH! Que Plácido de Castro nada... quem inventou o Acre foi o Dias Gomes! AH! AH! AH!  Plim! Plim!

*
Deixando o (con)fuso horário do Acre de lado, por esses dias andei revisitando algumas linhas que venho escrevendo e os aporrinhando desde que cheguei no Acre, e me deparei com a crônica que eu falo sobre a Rádio Cipó e a forma de comunicação entre os moradores da floresta. Era o Diário 18 e a resgatei publicando-a no blog dos Picaretas (www.picaretasdatavola.blogspot.com). A partir dos comentários dos amigos e leitores do blog, me trouxe uma outra reflexão.

Sempre lembrando, é claro, que a minha escrita é irresponsável e não pretende ser mais do que é: uma completa bobagem. Mas como ninguém sabe da verdade mesmo, e quem ousa dizer que conhece a verdade é porque está mais perdido do que os outros, me atrevo a cutucar esse punhado de interrogações que nos assola. Acompanhem o raciocínio por favor...  

Pra muitos que não conhecem, as famílias que moram na floresta, em geral moram nas margens dos rios e lagos e, no chamado centro. O centro é quando a casa fica localizada na floresta fechada, onde você precisa se deslocar das margens dos rios para o meio da mata. E são em lugares, muitas vezes, distantes das cidades próximas, onde demora-se de barco ou de pés, horas, dias ou semanas de viagem. É impressionante a capilaridade que essas populações alcançaram em busca da borracha. E como a lógica da área de cada família não é por lotes matematicamente medidos, elas entre si ficavam muito distantes uma da outra, porque sua unidade de medida principal eram as estradas de seringa (caminho que o seringueiro percorre tirando o látex das seringueiras. Começam e terminam em um mesmo lugar), que podem medir de 100 à 1.000 hectares. Em geral cada família possuía de 3 a 5 estradas de seringa, formando assim as colocações. Enfim, isso é uma outra história... o fato é que pelas grandes áreas em que viviam, um núcleo familiar ficava e fica muito distante uma da outra.

E, por incrível que pareça, essa distância toda criou laços fortes de compadrio estabelecendo uma espécie de pacto entre essas famílias que os permitem viver ali, tão distante do que nós, cidadinos que somos, consideramos indispensável. Sem acesso a meios de comunicação, as famílias formam uma espécie de telefone sem fio, que levam e trazem noticias, recados, encomendas... enfim, uma espécie de "Rádio Cipó" que ecoa pelas matas os assuntos que interessam aquela população. E podem acreditar: do mundo que lhes dizem respeito, eles sabem tudo!

E vez ou outra, é comum chamarmos essas famílias de "populações isoladas da floresta". E é aí que eu questiono: Como assim população isolada? Será que nós, urbanóides que somos, estamos tão integrados assim e tão por dentro do que acontece ao nosso redor? O que, afinal, é estar isolado?

Cada vez mais acredito que até o conceito de "isolado" é relativo. Tudo depende de onde você observa. O seu Raimundo da Colocação Boi Não Berra, conhece exatamente quem é a família que está a três horas de barco da sua casa ou a família da Dona Páscoa, que fica lá no centro a oito horas "de pés". E olha que, em geral, são tudo cumpade e cumade. Será que você ai, sentado no seu computador, esse instrumento fonte de grande parte da solidão moderna, conhece o seu vizinho de porta? E o que mora lá no andar de cima? Você acanhado que é, teria o acesso e a intimidade de pegar uma xícara de açúcar com o seu vizinho mais próximo?

Dominar a internet te faz saber em tempo real a temperatura das Filipinas, quem foi o campeão nacional da Bielorússia ou se o Ronaldinho pega travesti ou não... enfim, o computador e a internet transformaram-se no grande paradoxo moderno: te coloca em contato com o mundo inteiro ao mesmo tempo que te isola cada vez mais. E você aí, com cara de "globalizado" hein?! Meu amigo, esqueça o mundo e encare o local... é ele que vai te estender a mão primeiro.  

Afinal de contas, saber se a Bovespa caiu ou não pode até te ajudar a ficar mais rico, mas não te ajuda em nada quando você chega em casa e percebe que perdeu a chave da porta, o celular quebrou e você não sabe o nome do vizinho pra pedir um telefone emprestado.
É aí que eu te pergunto: quem é o isolado cara pálida?

30 de junho de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, mais isolado que o Seu Sabá e escrivinhador nas horas vagas



Escrito por Felipe às 22h50
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Mangueira ou Mangabeira? (Diário de um Acreano 55)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido no CEMA. Direto do Acre, onde o futuro já começou... em junho vamos avançar uma hora, rumo ao porvir. Já estamos ansiosos em saber as próximas vontades da Globo, afinal de contas, no nosso projeto "Ninguém segura esse Acre" esperamos chegar ainda em Greenwich... o chá das 5 da Rainha vai ter tapioca e tacacá... Marrapaiz! 

*
Vocês viram: a ministra Marina pediu pra sair. Há muito o Lula  queria tirar a Marina do ministério. Ele gritava pra ela

- PEDE PRA SAIR! PEDE PRA SAIR!
E ela não saia de jeito nenhum, até que o presidente perdeu a paciência
- AH É! NÃO VAI SAIR? O ZERO2 TRAZ A MANGUEIRA.
- Mas presidente, o senhor quer dizer o Mangabeira não é isso?
- MANGUEIRA OU MANGABEIRA TANTO FAZ... TUDO DÁ MANGA MESMO. TRAZ LOGO ZERO2!
HA! HA! HA! A Marina caiu fora enjoada de tanta manga que chupou! HA! HA! HA!

A verdade é que, noves fora e toda essa campanha de eterna mitificação da figura da ex-ministra, a gestão Marina Silva a frente do Ministério não foi das melhores não. E não to falando da falta de espaço que ela tinha no governo Lula não. Já era esperado e ela sabia que não teria espaço. Ela deixou-se fazer de marionete por esse governo (des) envolvimentista que buscava no seu prestigio uma "chancela verde" as besteiras feitas ao meio ambiente. Ou seja, foi mais fiel ao seu partido e a esse governo que ao próprio meio ambiente, além de ter tido a soberba de pensar que sua ausência era pior que sua presença. Durante o governo Lula foi uma das mais fiéis ao presidente (está no governo desde o primeiro dia... nem o ministro da fazenda ficou tanto), sofreu diversas pressões durante sua passagem no ministério e quando viu que sua imagem se queimaria ao apoiar tanto esse governo, saiu como vítima. Tadinha dela! Enfim, contrapor uma biografia louvável (biografia louvável é currículo de competência?) e sua figura pessoal frágil em contraposição ao Sapo Barbudo maldoso que não gosta de natureza, tornando-a vítima não nos ajuda em nada ao fazermos uma avaliação isenta (isso existe?) do seu desempenho e ainda reforça a sua imagem de mito que sempre foi criada em torno dela. E meus amigos, triste o país que constrói os seus mitos e os joga em cargos públicos... afinal, mitos são o que são... apenas mitos!

Falando na Marina começo a me lembrar dos momentos que lutamos contras as bobagens realizadas na gestão ambiental do Brasil nesse período. Além de lutarmos contra o desrespeito aos servidores (que muita vezes nem cito essa questão pra não parecer uma birra meramente corporativista), lutamos também contra o desmonte do IBAMA. E me orgulho muito de ter participado do movimento contra a divisão do órgão em 2007, do qual surgiu o Instituto Chico Mendes que cuida (ou cuidará um dia) das Unidades de Conservação. Durante essa luta, que realmente nos desgastou pessoalmente e emocionalmente, conseguimos ou tentamos mostrar para a sociedade o porque éramos contra a divisão. Hoje, um ano depois, fico em um misto de angústia e tranqüilidade. Angustia em ver que não está dando certo (afinal de contas, dividido ou não a nossa missão tem que dar certo) e tranqüilo por estar se confirmando muitas das coisas danosas que prevíamos que iria acontecer com a divisão mostrando que o nosso movimento tinha razão de ser e um objetivo bem maior que os nossos salários, que chegaram a ser cortados. Sabe aquele sentimento meio mesquinho e irônico do "eu te disse!" "eu te disse!", que por sermos humanos em demasia, vira e mexe nos acomete? É isso que ando sentindo... confesso!

No meio disso tudo, é claro que histórias engraçadas aconteceram. Quando é que elas não acontecem? Durante o movimento contra a divisão, íamos muito a televisão para nos manifestar o porque éramos contra a criação do Instituto Chico Mendes. Foi quando estava no meu bar preferido com amigos e o seu Gerson, o dono do boteco, veio entusiasmado...

- Felipe, você está de parabéns. Vi ontem sua entrevista na TV e concordo completamente com que você disse.
- Rapaz, que legal então que você entendeu a mensagem. Nossa luta é por uma gestão ambiental digna seu Gerson. Fico feliz com o seu apoio.
- Isso mesmo. Sabe de uma coisa, eu até sou do partido, mas nunca gostei do cara.
- Mas ele também não é do partido... o Capobianco (secretário-executivo do ministério) não é de confian...
- Marrapaiz, tu foi na televisão e falou mal do cara. Tu é corajoso hein!
- Que nada... aqui ninguém conhece o Capo...
- Mas como não? Aquele tal do Chico Mendes era um baderneiro e um beberrão de uma figa! Um arruaceiro!
- Hâ? Mas....
- Aquele sujeitinho invadiu a terra do meu pai.
- Mas o problema não é o Chico, é o Instituto Chi.....
- Eu achei é bem feito ter morrido. Se não fosse o Darli, eu é que tinha atirado no gaiato.
- Mas o Chico Mendes é muito importante para a luta ambient....
- E você tá de parabéns por ir na televisão e desmascarar o sujeito. Corajoso viu!
- Mas eu não falei mal do Chi...
- Oh Zé! Um frango a passarinho pra essa mesa aqui... e é por minha conta viu!
- Obrigado seu Gerson, mas está havendo um equivoco... não estava falando mal do...
- Zéééé, aproveita e traz caldinho de feijão caprichado pro povo aqui também!
- Mas seu Gerson o senhor não entend....
- Ah esqueci! A rodada de cerveja também é por minha conta.
- Mas... como? Cerveja? 
- Isso mesmo...por minha conta!
- Mas como era um beberrão aquele baderneiro né não seu Gerson! Uma lástima!
- Marrapaiz! Não to dizendo...

 

28 de maio de 2008
Felipe Cruz Mendonça

Servidor público, pô! Mas era cerveja né...  e escrivinhador nas horas vagas



Escrito por Felipe às 09h53
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(Con)fuso horário  (Diário de um Acreano 54)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pelos Senadores (ops!) Senhores do Tempo. Direto do Acrean Way of Life.
Meus queridos e queridas é com muita alegria que informo que o Acre cresceu. É isso mesmo, estamos em plena ereção! A pouco o Supremo Tribunal Federal encerrou uma disputa territorial de 26 anos entre o Amazonas e o Acre, onde a terrinha ganhou 1.184 km² na área da divisa. Toma essa Manaós! ... agora só falta saber o que fazer com esse pedaço de mais pobreza, de mais desamparo, de mais ausência. Mas tudo bem! Como diria o outro: miséria pouca é bobagem. Vem pra nóis!

E para os que pensam que pretendemos parar por ai, estão muito enganados. Já temos planos ambiciosos de expansão na Sul-América. A oeste esperamos em 2020 já dominarmos Machu Pichu e um ano depois, segundo nossos estrategistas, já estaremos na Serra da Mantiqueira. Só não queremos o mar, porque aí perderíamos a desculpa de ir para Fortaleza... e, sabe como é né: tem certas tradições que não se mexem.

*
E o Acre nas últimas semanas não só se expandiu, como resolveu brincar com o tempo. O fato é que esse modesto geógrafo que vos fala, teve o privilégio de ver na última semana como se altera um fuso horário. Pode parecer pouco, mas pra nós da Geografia é muito importante... eu diria que presenciei um momento épico. Imagino que seja algo similar a emoção que um biólogo tem ao ver uma mitocôndria respirar, de um astrônomo ao observar o alinhamento impressionante das Três Marias, a Lua e a Terra com o seu nariz, ou então de um botafoguense vendo seu time campeão. Antes de irmos direto ao assunto, um pouco da Geografia do tempo: imagine a Terra como uma mexerica com 24 gomos iguais. Se toda circunferência tem 360°, assim como a mexerica, cada um desses 24 gomos tem 15°. E é exatamente assim que se determina as 24 horas do dia. Cada gomo da mexerica ou fuso da Terra corresponde a uma hora, contadas a partir do Meridiano de Greenwich. Essa é a convenção, amparada em teses cientificas e ratificada por vários países em uma conferência internacional realizada em 1884 na Inglaterra. No entanto nem sempre esses gomos obedecem sua hora estabelecida. Para atender questões políticas e financeiras (sempre elas), os fusos são ajustáveis. É por isso que Brasília tem o mesmo horário de Buenos Aires, onde o correto seria a capital portenha estar a uma hora a menos do Distrito Federal, por exemplo.

No Brasil, até 1913 a hora no país era a mesma para todas as regiões. Foi uma lei deste ano que determinou a hora legal no país, estabelecendo que horário que deverá ser adotado em cada canto desse país continental que vivemos, de acordo com as regras internacionais. E essa lei estabeleceu que o Brasil teria 4 horas diferentes, e que o Acre seria o único Estado brasileiro junto com alguns municípios do Amazonas que ficaria no fuso de duas horas a menos de Brasília.

Dito isso, a verdade é que na semana passada foi decidido no senado federal que o Brasil não terá mais 4 fusos horários. O Acre avançará uma hora para assim ficarmos uma hora apenas do horário de Brasília. No entanto, as coisas não se dão assim ao acaso meu amigo. Tudo nesse mundo é uma construção... ou não, como diria Caê. Você já deveria saber!

Existe toda uma receita que envolve política, futebol, televisão, oportunismo e muita bobagem, que nos diz muito sobre como as coisas acontecem em terras tupiniquins. Ela é meio enjoativa, mas anota aí o passo a passo:

Primeiro você pega a portaria 1220/07 do Ministério da Justiça que obriga as emissoras de televisão a ajustar toda sua programação de acordo com o fuso horário das regiões onde ela passa, em consonância com o que pede o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Depois você mistura bem com a principal Rede de Comunicação do país, a Rede Globo, e coloque-a contra a tal portaria 1220/07, uma vez que a forçará ajustar a sua programação, nos locais com fuso horário diferente do de Brasília. Ou seja, ela vai ter que fazer uma programação para o fuso menos 1h de Brasília (Manaus, Porto Velho, Cuiabá, Campo Grande) e outra programação diferente para o fuso menos 2 horas onde apenas o Acre se encontra. Junte a isso atitude da Globo em bagunçar toda sua programação, buscando colocar a população contra a portaria que a obrigou alterar a programação, colocando novela das sete depois do Jornal Nacional, passando todos os jornais da emissora em VT e o futebol de quarta-feira agora também não é ao vivo. Detalhe: a portaria não diz nada sobre os programas ao vivo, portanto, elas poderiam ser passadas na hora que sempre passou. Mas como a intenção é demonstrar força e forçar o governo para que reveja a portaria de classificação etária, é sempre bom dificultar!

Logo depois, você coloca uma colher de chá da negativa do Ministério da Justiça em adiar mais uma vez a entrada em vigor da Portaria (ela já havia sido adiada por 6 meses a pedido da Globo). Com isso, vendo que não conseguiria protelar a portaria 1220/07 mais uma vez, os Marinho optaram em ao menos diminuir o prejuízo.

Agora você deixa descansar a massa por cinco minutos. Depois, você convoca uma xícara de uma reunião de emergência, sob pressão da Globo, com procuradores do Ministério Público Federal, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e os senadores da base governista Romero Jucá (PMDB-AL), Tião Viana (PT-AC), Fátima Cleide (PT-RO) e Valdir Raupp (PMDB-RO), pra ver como dar aquela "mãozinha" para a Vênus Prateada.   

Dessa mistura com essa reunião, você tira aquele projeto de lei que tava meio sumida no Senado, de autoria do senador Tião Viana, que altera o horário do Acre para menos uma hora em relação a Brasília. Ai você me pergunta: Mas porque? Ora, pra ganhar gosto, como não! Agora pelo menos a Globo não precisaria fazer uma programação exclusiva de menos duas horas só para o Acre. Os entendedores do assunto dizem que diferentes programações afetam diretamente o faturamento da emissora e suas afiliadas nos Estados. E não podemos esquecer que são quase 20 milhões de brasileiros que vivem com a hora diferente de Brasília.

Daí, quatro dias depois da entrada em vigor da Portaria 1220/07 e no mesmo dia da reunião de emergência, você liga o forno e coloca o Projeto de Lei aprovado, que altera o fuso horário do país, para assar em caráter de urgência, urgentíssima.

Daí em diante, é só esperar a sanção presidencial e servir a vontade.

Pois é assim que se altera um fuso horário meus caros e caras. De minha parte, na verdade, sempre quis que o horário do Acre se alterasse pra ficar mais próximo do horário de Brasília, o que facilitaria no meu trabalho e no meu lado pessoal. Mas isso não me deixa achar certo essa tomada de decisão totalmente arbitrária, oportunista, sem qualquer consulta da população acreana e a favor dos caprichos financeiros da Rede Globo. Por aqui a polêmica está correndo solta.  E de certa forma, a bem da verdade, dá até uma certa melancolia em saber que nosso horário irá mudar... a hora diferente era um dos nossos charmes, o que nos diferenciava dos demais. Sentirei falta...
E como se não bastasse, o nosso brilhante democrata, o nobre senador Tião Viana, sempre muito preocupado com as diferenças, depois de aprovada sua lei, reduz toda discussão à seguinte pérola:

"Eu luto contra a desigualdade dos horários. Como meu projeto foi aprovado ao mesmo tempo que surgiu esta confusão nos horários das tevês, estão dizendo que o meu projeto estaria criando a confusão. Pelo contrário, o meu projeto vai diminuir a confusão, porque hoje está de um jeito nesse horário louco que, quem é do Acre está gritando gol com duas horas de atraso, quem é de Manaus está gritando com uma hora de atraso e quem é de Brasília grita o gol na hora certa".     

É meu amigo, chupa essa mexerica!


14 de abril de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, (con)fuso e escrivinhador nas horas vagas



Escrito por Felipe às 01h15
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A família acreana (Diário de um Acreano 53)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pela Manézona. Direto da terra das chegadas e partidas, dos encontros e desencontros, do PT ou não PT... por aqui o meio termo não tem vez.

Meus caros e caras, a experiência de viver longe dos seus é muito enriquecedora. Cresce-se a passos largos e, me permitem essa vaidade e que me perdoem os fracos, tem que ser forte. Eu diria, parodiando o seu Sabá, que fraco eu não sou não, mas forte também... Ha! Ha! Ha!

No momento da distância de suas referências, você é obrigado a tomar a sua vida pela mão e dizer a ela: "Agora é só nós dois. Seremos eternos responsáveis pelo o que nos causarmos. Ó, pra ser feliz vale tudo viu: só não vale puxar o cabelo e dedo no olho." Ai segue o seu caminho, trombando quase sempre, mas seguindo. É claro que pra isso você não precisa necessariamente se mudar pro Acre. Você pode tomar sua vida (ou não) em qualquer lugar... seja logo ali ou a 4 mil km de casa. O diferencial talvez do estar longe é que você vai criando laços de família. Isso mesmo, sem aspas. Aos poucos você vai criando vínculos de amizades intensos que acaba criando uma nova família... isso quando não é adotada por outra. Aqui no Acre, grande parte dos meus amigos queridos, é de fora também. Muitos com histórias semelhantes de vida, recém formados, com vontade de conhecer outros mundos e tocar a vida. Essa gente toda se junta e forma a família acreana. Dentro dessa miscelânea de origens tão diversas, os papéis vão se invertendo: ora você é o irmão pirrão, ora é o pai carinhoso, ora é a mãe brava, ora é o filho distante. Cada um vai assumindo o papel que precisa para cada momento. E como toda a família, existe também as despedidas. Por exemplo, a minha família acreana já contou com o Sandovaldo, um piauiense comédia toda vida, tão cabeçudo como eu. Tinha também a Giovana e o Fabiano, ela paulista de São Bernardo e ele candango de Brasília. Teve a Renata agrônoma de Botucatu. A Mariangela e o Alberto, o casal Sol e Lua e suas histórias de vida surreais e amigos do peito. Já teve a Claudinha e o Miguel amigos queridíssimos do meu coração, ela bióloga e ele filósofo baiano (isso mesmo, existe!). O Amaral, um colega de profissão com quem aprendi muito, seja em ética, em coração ou em técnica, que não deve ter idéia da admiração que tenho por ele e do amigo que o considero. Teve também a Priscila, um doce de pessoa com quem lamento não ter tido um contato maior. Contou com a Cris, o Ricardo e o Samuel, família do meu coração onde o astro é o Samuquinha, que foi dormir por esses dias e falou pra Cris "Mamãe, vou imitar o tio Felipe dormindo". E começou a ressonar (porque como todos sabem, eu não ronco!). Ainda contou com a Nayara, uma curitibana ponta firme e de risada gostosa. Hoje eles tocam suas vidas distantes do Acre, mas já experimentaram as delicias e agruras do aquiry.  

Muito desse núcleo familiar foi formado em volta da Casa da Melancia, onde minha amiga Dri mora. Melancia é por causa das cores da casa onde, aliás, as festas eram famosas por Rio Branco. A Dri, é uma espécie de aglutinadora de toda a turma... ela faz meio que o papel da mãe. Teve uma época, que a impressão que dava, era que todas as pessoas que chegavam ao Acre, passavam pela casa Melancia para serem acolhidos por ela e por todos (na época eu chamava de pensão Melancia... ela não gostava!). Uns ficavam pra família, outros se dispersavam, mas todos chegavam atrás de referências, amizades e companhias na cidade nova. E isso tudo só aconteceu, muito por causa da generosidade e a capacidade de agregar as pessoas que a Dri tem. No entanto, hoje é a vez dela de ir embora. Ela conheceu um cara ai (esse Renato me paga!), se engraçou pelo sujeito, vai casar e se mudar pra Curitiba. Ou seja, vai abandonar a família acreana.

Colocando todo o meu ciúme de lado, o jeito é deixar ir né... fazer o que? Cheguei a pensar em correntes, ameaçar suicídio, trancar a porta e jogar a chave fora, mas acho que não daria certo. O jeito é engolir o orgulho, anotar o nome do Renato no meu caderninho negro e deixar a Dri ir.

Minha querida amiga, você vai e deixa um órfão no Acre (sua desalmada...hehehe). Obrigado pelas broncas, pelo carinho e pelo apoio no episódio mais difícil da minha vida. Obrigado sempre pela mão estendida... nos meus sonhos, os anjos são acolhedores e generosos como você. Te amo viu....

P.S. Mas que o Samuquinha sempre preferiu o tio Fe é evidente....

18 de março de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, amigo da Dri e escrivinhador nas horas vagas
e-mail:
felcm40@hotmail.com



Escrito por Felipe às 15h46
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