O Diário de um Acreano


Cecília e Francisco  (Diário de um Acreano 51)

"Não se afobe, não /Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis / Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber / Com o amor que eu um dia
Deixei pra você"

Chico Buarque

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pelos portadores de alto teor etílico no sangue. E mais um Natal se vai e junto sua febre consumista contestável que nos assola todos os anos, onde cada vez mais percebo, em meio a tanta quinquilharia de todos os tipos, quanta coisa que eu não preciso pra ser feliz. E o diário chega aos 51, cambaleando mas seguindo em frente. Aliás, vocês sabem como se divide 51 em dois? Meio litro pra cada pinguço. HA!HA!HA!

*
O Francisco era um homem comum. Era jovem, algo em torno de 30 anos, com uma vida relativamente boa, um trabalho que ele gostava muito e que lhe trazia estabilidade financeira, o que afinal, era muito importante pra ele uma vez que sempre procurou segurança, seja profissional ou pessoal. Aliás, suas relações sempre primavam pela segurança com que podia "dominar" a situação. Na vida particular, não era adepto a grandes rompantes. Prezava sua liberdade, mesmo não sabendo o que fazer com ela. Orgulhava-se e dizia em voz alta que não tinha ciúmes. Gostava dos momentos de estar sozinho, seguindo por rumos na vida que o transformou em um sujeito solitário. Era um boa praça que zelava pela sua intimidade, não se abrindo muito para os outros. Cultivava uma espécie de egoísmo d'alma que o permitia ser sociável, sempre com um bom ouvido pra dar atenção ao outro, mas sem se abrir a quem quer que seja. As pessoas com que abria sua intimidade eram bastante selecionadas, e ainda sim, com resalvas. Tinha poucos mas grandes amigos que não desistiam dele, apesar de muitas vezes não saber regar esses tesouros. Jamais soube amar.

A Cecília era também uma jovem mulher com uma vida independente e muito boa. As semelhanças com Francisco acabavam aqui. Era uma pessoa alegre, pulsante e vibrante. Sempre com um pedaço de vida na manga pra colocá-la em movimento. Sempre. Cultiva amigos na mesma velocidade com que conhecia pessoas. Na vida pessoal era intensa e densa. Não desperdiçava um grande amor. Mesmo quando perdida na avenida, era dura na queda.

Quis a vida que os dois um belo dia se cruzassem. Aliás, depois de uma série de coincidências, só podiam se conhecer mesmo. A amiga com quem Cecília morava, morou com a irmã do Francisco em Bruxelas uns tempos atrás, além do cunhado dela trabalhar com ele. Enfim, dessas boas tiradas do destino que reforçam que o mundo é no máximo um pouco maior do que uma laranja lima.

A Cecília começou a movimentar a vida do Francisco e ele gostou disso. Com ela, ele era uma pessoa melhor. Ela o fazia ser melhor e ele buscava isso. O relacionamento dos dois baseava-se no bom humor e nos gostos em comum. É claro que ele não suportava o U2 e nem sabia que o Sting (aquele dos índios) tinha uma banda chamada Police, mas de resto, tinham as mesmas preferências. Segundo rumores, na boca pequena, dizem que o Francisco se apaixonou pela Cecília quando numa conversa sobre decomposição do plástico na natureza ela dizia...

- O plástico na natureza para decompor demora um tempão.
- Realmente. Só pra constar: são 100 anos o tempo que leva.
- Viu só, se pra constar são 100 anos imagine pra decompor.
HA! HA! HA! Tirada sensacional, dizia Francisco.

Era um relacionamento leve, gostoso de se levar. O Francisco inclusive aprendeu o que era o ciúmes e viu que se bem dosado, pode ser sim o perfume do amor. No entanto, o Francisco, solitário que sempre foi, não entendeu o que era um relacionamento. Talvez nunca tivera um relacionamento que o exigia tanto como aquele. Exigir no sentido de sua própria entrega. Ele havia ido no limite de sua capacidade de doar-se ao outro. Mas, infelizmente, não era o bastante para Cecília. Afinal de contas, quem quer alguém que não seja por inteiro? Por achar que o relacionamento o faria perder sua liberdade, vejam só, acabou ele preso em um sentimento incompleto, onde não conseguiu se entregar, apesar do amor que sentia por Cecília. A comparação que ele fazia era como se fosse um escafandrista que não conseguia trazer a tona o tesouro tão procurado. Cecília fez com que Francisco mudasse sua vida e ele não soube o que fazer com ela.

Essa historia não faz questão de ser nada, talvez nem fim ela tenha. É apenas o relato de uma história de amor, que talvez seja igual a tantas outras, mas que pretende apenas mostrar o quão importante é se permitir. O Francisco tirou como lição que é preciso amar e se deixar amar, além de cuidar do seu amor... seja ele quem for.

Esse diário é dedicado a Pimentinha e a todos que se permitem



Escrito por Felipe às 23h26
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