Local ou Global? Eis a questão... (Diário de um Acreano 56)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do não sei onde. Direto da terra do Tiãozinho Hora Certa... o nosso Odorico Paraguassu acreano. Em um delírio de "humildade extrema", mandou a real: "Vamos deixar de lado os entretantos e vamos direto aos finalmente. Eu quero que a hora do Acre mude e assim será." Viva Odorico! Viva! Viva! É assim que eu gosto de político: muda a hora do pôr do Sol na caneta... sensacional!
- Mas Felipe, isso não está certo não. Uma medida dessas tinha que consultar a população que será afetada pela mudança das horas. Isso altera todo o dia-a-dia das pessoas. - Lá vêm os pessimistas. Ô povinho negativo... deixa que o homi sabe o que faz! O Tiãozinho joga o povo pro futuro e vocês ficam ai garrado no passado! Faça-me o favor! Tô certo ou tô errado? AH! AH! AH! Que Plácido de Castro nada... quem inventou o Acre foi o Dias Gomes! AH! AH! AH! Plim! Plim!
* Deixando o (con)fuso horário do Acre de lado, por esses dias andei revisitando algumas linhas que venho escrevendo e os aporrinhando desde que cheguei no Acre, e me deparei com a crônica que eu falo sobre a Rádio Cipó e a forma de comunicação entre os moradores da floresta. Era o Diário 18 e a resgatei publicando-a no blog dos Picaretas (www.picaretasdatavola.blogspot.com). A partir dos comentários dos amigos e leitores do blog, me trouxe uma outra reflexão.
Sempre lembrando, é claro, que a minha escrita é irresponsável e não pretende ser mais do que é: uma completa bobagem. Mas como ninguém sabe da verdade mesmo, e quem ousa dizer que conhece a verdade é porque está mais perdido do que os outros, me atrevo a cutucar esse punhado de interrogações que nos assola. Acompanhem o raciocínio por favor...
Pra muitos que não conhecem, as famílias que moram na floresta, em geral moram nas margens dos rios e lagos e, no chamado centro. O centro é quando a casa fica localizada na floresta fechada, onde você precisa se deslocar das margens dos rios para o meio da mata. E são em lugares, muitas vezes, distantes das cidades próximas, onde demora-se de barco ou de pés, horas, dias ou semanas de viagem. É impressionante a capilaridade que essas populações alcançaram em busca da borracha. E como a lógica da área de cada família não é por lotes matematicamente medidos, elas entre si ficavam muito distantes uma da outra, porque sua unidade de medida principal eram as estradas de seringa (caminho que o seringueiro percorre tirando o látex das seringueiras. Começam e terminam em um mesmo lugar), que podem medir de 100 à 1.000 hectares. Em geral cada família possuía de 3 a 5 estradas de seringa, formando assim as colocações. Enfim, isso é uma outra história... o fato é que pelas grandes áreas em que viviam, um núcleo familiar ficava e fica muito distante uma da outra.
E, por incrível que pareça, essa distância toda criou laços fortes de compadrio estabelecendo uma espécie de pacto entre essas famílias que os permitem viver ali, tão distante do que nós, cidadinos que somos, consideramos indispensável. Sem acesso a meios de comunicação, as famílias formam uma espécie de telefone sem fio, que levam e trazem noticias, recados, encomendas... enfim, uma espécie de "Rádio Cipó" que ecoa pelas matas os assuntos que interessam aquela população. E podem acreditar: do mundo que lhes dizem respeito, eles sabem tudo!
E vez ou outra, é comum chamarmos essas famílias de "populações isoladas da floresta". E é aí que eu questiono: Como assim população isolada? Será que nós, urbanóides que somos, estamos tão integrados assim e tão por dentro do que acontece ao nosso redor? O que, afinal, é estar isolado?
Cada vez mais acredito que até o conceito de "isolado" é relativo. Tudo depende de onde você observa. O seu Raimundo da Colocação Boi Não Berra, conhece exatamente quem é a família que está a três horas de barco da sua casa ou a família da Dona Páscoa, que fica lá no centro a oito horas "de pés". E olha que, em geral, são tudo cumpade e cumade. Será que você ai, sentado no seu computador, esse instrumento fonte de grande parte da solidão moderna, conhece o seu vizinho de porta? E o que mora lá no andar de cima? Você acanhado que é, teria o acesso e a intimidade de pegar uma xícara de açúcar com o seu vizinho mais próximo?
Dominar a internet te faz saber em tempo real a temperatura das Filipinas, quem foi o campeão nacional da Bielorússia ou se o Ronaldinho pega travesti ou não... enfim, o computador e a internet transformaram-se no grande paradoxo moderno: te coloca em contato com o mundo inteiro ao mesmo tempo que te isola cada vez mais. E você aí, com cara de "globalizado" hein?! Meu amigo, esqueça o mundo e encare o local... é ele que vai te estender a mão primeiro.
Afinal de contas, saber se a Bovespa caiu ou não pode até te ajudar a ficar mais rico, mas não te ajuda em nada quando você chega em casa e percebe que perdeu a chave da porta, o celular quebrou e você não sabe o nome do vizinho pra pedir um telefone emprestado. É aí que eu te pergunto: quem é o isolado cara pálida?
30 de junho de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, mais isolado que o Seu Sabá e escrivinhador nas horas vagas
Escrito por Felipe às 22h50
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