O Diário de um Acreano


NelsonRodriguiando (Diário de um Acreano 57)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido em Macapá, a terra do riozão. Nóis tarda, nóis falha, mas nóis vorta! Direto da terra da Pecuária: a cultura nacional.... MUUUUUU!!!!!!! E vocês sabem como era anunciada a terrinha nos jornais paranaenses na década de 70? Acre, o filé mignon da Amazônia. E dá-lhe boi na floresta! E sabe como era Rondônia? Rondônia. Calma! já já você chega no Acre! Ha!Ha!Ha! Rondônia, o colchão duro da Amazônia.
*

Meus amigos, antes de tudo, queria pedir desculpa pela demora do número 57 desse fracassado diário que vos perturba mensalmente. O quê? Não perceberam o atraso? Tudo bem, engulo mais essa! 

A verdade é que o Gomes, o sujeito que me fornece as crônicas, começou a cobrar mais caro pelas mesmas, dizendo que tava com o tempo apertado e que não podia mais se comprometer em escrever as bobagens que publico. Ainda veio com um papo que já não achava justo eu assinar os textos dele e que agora ele queria aparecer também... saca o compositor que quer cantar? Mais ou menos isso... aliás, o Gomes é o primeiro compositor de crônicas que eu conheço. Ele compõe e eu, com a minha tremenda cara de pau, interpreto. Percebam: não é plágio, é interpretação CRÔNICA! Normal, né não? Agora ele vem reclamar.... vê se pode! Como se eu não pagasse caro pelas histórias... e como é caro!

E mesmo dando uma puxada no saco do Gomes, ele de fato me deixou na mão esse mês. Mas para não deixá-los em paz ou a ver navios, me coloco o desafio de conduzir por conta própria este mensário diário.

Por isso vou lhes contar uma história. Como vocês já devem ter percebido, o Acre é um Estado onde histórias deliciosas acontecem. No entanto, esse acontecido que contarei a vocês é uma tragédia. Aliás, parece ter saído da cabeça de Nelson Rodrigues. Quem me conta ela é o Abrahim Faraht, o Lhé.

O Lhé é uma figura ímpar em Rio Branco, uma espécie de Profeta Gentileza do Acre. Uma lenda viva da terrinha, de uma generosidade e bondade tremenda... um patrimônio acreano.

Ele conta que no início da década de 40, no Acre, o presídio de Rio Branco ficava localizado no centro da cidade onde há pouco tempo funcionava a Prefeitura. O Adolfo, um agente carcerário do local, era um sujeito aparentemente normal e que era apaixonado pela Lindalva. A Lindalva era professora do grupo escolar e passava diariamente na frente do presídio a caminho de casa. Um belo dia Adolfo resolveu declarar o seu amor a Lindalva. Ela, no entanto, disse a ele "que seu coração já tinha dono". Adolfo, porém, não aceitou muito bem a rejeição da professora e resolveu não deixar barato a história. 

Havia um preso na cadeia com o nome Januário, que era de Feijó, no interior do Estado. Adolfo começou a dizer para Januário que conhecia uma mulher que estava interessada nele, mas que não se apresentava a ele por se sentir envergonhada. Januário ficou encantado com o que ouviu, afinal, ele era um presidiário solitário que pouco recebia visita da família do interior e, convenhamos, alguém se interessar por um preso não é lá muito comum (ou é?).

Aquela história começou a acalentar o pobre detento nos seus dias de solidão no cárcere. Vendo a empolgação de Januário, Adolfo começou a escrever cartas para ele como se da suposta amada fosse. Eram cartas apaixonadíssimas que falavam de amor para sempre e prometendo esperar o tempo que fosse por ele em liberdade. Adolfo começou a escrever cada vez mais, deixando Januário, já apaixonado pelo seu amor misterioso aquela altura, cada vez mais inquieto atrás de saber quem, afinal, era sua paixão secreta.

Lindalva, quando passava em frente à cadeia, via sempre Januário também trabalhando na praça, nos serviços de manutenção e cumprimentava-o normalmente com "bom dia", "boa tarde", como a boa educação pede. Aliás, pelo que o Lhé conta, as celas naquela época tinham janelas para rua e Lindalva educada que era, cumprimentava inclusive os detentos. Era uma "relação" que nunca havia passado desses cumprimentos formais do dia-a-dia. 

Com a insistência de Januário em saber quem era sua amada, Adolfo resolveu lhe falar. E, em mais um dia que Lindalva passava pela rua, Adolfo a apontou a Januário e disse: "Aquela é a sua amada".

Januário ficou boquiaberto por nunca ter suspeitado de Lindalva, aquela moça que passava pela rua todo dia e que nunca demonstrou um olhar mais insinuante para ele. Enfim, ela deve ser acanhada e está com medo de se declarar a mim, pensava ele. E Lindalva, nem suspeitava de tal invenção sórdida de Adolfo.

Com a revelação de quem é seu grande amor, e cada vez mais entusiasmado e acalentado pelas "cartas de amor de Lindalva" que não paravam de chegar, Januário foi ficando cada vez mais apaixonado por ela e inquieto com a situação. Ao mesmo tempo em que ela não declarava abertamente quem era, Januário também não queria demonstrar que sabia do "amor de Lindalva", por medo, timidez ou pelo simples fato daquela história ser tão importante para ele durante aqueles meses, que ele tinha medo de estragar tudo. 

Adolfo ao perceber que a trama começava a tomar o rumo que sempre imaginou, vendo Januário cada vez mais obcecado por aquela história, resolveu dar o desfecho a farsa. Escreveu uma outra "carta da amada" para o preso, porém, acabando com tudo, dizendo que "seu coração já tinha outro dono", como Lindalva havia dito a ele, e que não esperaria mais pela sua liberdade. 

Aquela carta transtornou o coitado do Januário, fazendo-o sofrer de amor por muitos dias. No entanto, depois de um pouco já refeito de sua decepção amorosa, Januário resolveu se vingar: "Se ela não vai ser minha, não será de ninguém." E no dia 25 de novembro de 1941, enquanto capinava a praça, e Lindalva fazia seu percurso diário em frente a delegacia retornando para casa onde sua família estava nos preparativos para o seu casamento que aconteceria dali há um mês, ele pegou o facão com que trabalhava e atacou Lindalva na traição, matando-a ali mesmo.

O episódio correu a cidade toda, transformando-os no assunto do final daquele ano, onde todos queriam saber sobre Januário e Lindalva, a trágica história de amor onde Lindalva morreu de amor... mesmo sem saber! 

13 de agosto de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, nelsonrodriguiando e escrivinhador (ops!) interprete de crônicas alheias nas horas vagas



Escrito por Felipe às 02h01
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