O Diário de um Acreano


 

Isso precisa de uma vida (Diário de um Acreano 59)

 

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do logo ali. Direto da terra do delegado Protógenes, aquele que provou por A mais B, os crimes de corrupção do Sr. Daniel Dantas, mas que no momento, por motivos de força maior, está passando por uns probleminhas por ter investigado o sr. Dantas que, como todo mundo já sabe, não poderia ser investigado. Afinal de contas, com a mídia na mão e com o presidente do STF como advogado, quem vai pegar Daniel Dantas?
*
Mas como, por incrível que pareça, não só de corruptos vive o Brasil, estive há pouco vivendo e convivendo por 16 dias uma vida que quase nada tem a ver com a minha, mas que me diz muito do que espero do futuro do meu país e do planeta. Foi um período de diálogo e convivência com um modo de apropriação da natureza que diferente do modelo devastador da nossa sociedade ocidental capitalista-industrial-monetária-etceteraetal, na qual estou inserido até a medula.

Passei todos esses dias na casa do Seu Antonio Souza de Queiroz, mais conhecido por Tota. Diferente de tantas outras expedições anteriores, quando íamos para floresta parando de porto em porto, visitando as famílias sem o tempo necessário pra responder perguntas básicas para um gestor de Reserva Extrativista, tal como "do que mesmo eu tô tratando?", desta vez tive o tempo e, principalmente, interesse (é preciso meu amigo...) de experimentar um pouco da dor e da delícia de se viver em uma condição tão, aparentemente, adversa.

O Tota mora na boca do igarapé Sossego, no rio Purus, mais ou menos no meio do caminho entre a cidade acreana de Sena Madureira e a cidade amazonense de Boca do Acre. Ou seja, ele está há dois dias de qualquer um desses centros urbanos e, morando junto com ele, estão todos os problemas causados pelo incrível "poder de invisibilidade" que essa população possui, como falta de educação, de saúde, de segurança, de respeito e todas essas "frescuras" que deviam ser universais a todos os homens.

O Tota é casado com a Dona Maria de Lourdes, mas que é conhecida mesmo como Dilurdes. A principal característica da Dona Dilurdes, além de todas as características que tem uma pequena agroextrativista e dona de casa, é o seu sorriso tão acolhedor e maternal que não tive dúvidas: adotei como minha mãe da mata. Tinha também os filhos Ediney e o Antônio. O Bimbinha, apelido do Ediney, é um menino muito bonito, com seus 16 anos que, por não ouvir, também não conseguia falar. Mas alegria e sorriso no rosto não lhe faltavam não. Já o Caçulinha, como Tota chama o Antônio, é também um moleque espertíssimo, cheio de vida e de igual sorriso franco. Aliás, é uma família, que alguns diriam, tem uma luz muito especial.

Foram dias de uma troca de aprendizagem enorme entre mim e aquelas pessoas: de um lado quem vos escreve, com uma visão de mundo e algumas coisas que teve a oportunidade de aprender a fazer (como ler, por exemplo) para ensinar e, eles, rindo do meu sem jeito para descascar uma macaxeira, e me ensinando a viver aquela vida cheia de significados e saberes. E, meus amigos, não têm jeito: é só nos deparando com o diferente, que conseguimos nos enxergar, refletir sobre quem somos e, quem sabe, mudar.  Eu acho que venho mudando nesses anos todo de Acre.

Um episódio curioso em que vivi naqueles dias foi quando eu estava no lap top organizando fotos e os dados que precisávamos levantar para o trabalho, quando o Tota foi ver o que eu estava fazendo e fascinado afirmou enfaticamente:

"Felipe, pra mexer nesse bicho ai precisa de um estudo."

Achei curiosa aquela afirmação dele. Colocado assim no singular, talvez não dê conta de toda a complexidade que é a formação escolar e acadêmica de uma pessoa. Toda aquela acumulação de estudos realizados, e vem o Tota chamando "apenas" de estudo.

No entanto, logo me lembrei que para ele foi negado qualquer tipo de escola formal. Ao Tota foi negada a possibilidade de estudar, ainda que a educação seja direito de todos assegurado na Constituição. Lá fala: "todos tem direito a educação", e não fala nada do tipo "todos, menos os que moram longe pra dedéu". Ali percebi que para ele, o estudo é tão inacessível que até mesmo no singular, ganha conotações plurais.

De minha parte aprendi muito com aquela família. Hoje já sei plantar e descascar uma mandioca (sem maldade, por favor!), escolher bem a maniva pra que vingue melhor depois, estou aprendendo a dirigir canoa no rio. Ainda não aprendi a jogar tarrafa pra pescar, mas já fui motivo de risada ao tentar, aprendi que rezaderia pode ser melhor que hospital, que em alguns lugares a castanha já começa a dar em novembro mesmo e que domingo, segundo o Tota, é dia de ficar em casa pra não correr o risco de não saber mais voltar. Enfim, foi um período de várias pequenas lições que formam esse modo de viver diferente do meu tempo (internet X canoa) e de como costumo levar minha vida (urbana X rural). Várias lições que não se aprende na universidade ou em qualquer outro lugar que não seja vivendo.

E por isso, ao me despedir do Tota e da Dona Dilurdes, reconhecendo todo aquele saber acumulado com o dia-dia na mata, afirmei também sem dúvida nenhuma:
- Tota e Dona Dilurdes, pra saber de tudo isso ai, precisa de umA vida. Sua benção meus amigos!


27 de novembro de 2008
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público, com estudoS, atrás de  umA vida e escrivinhador nas horas vagas.


Se você quiser conhecer um pouco mais o Tota, veja o vídeo abaixo onde ele conta um pouco de como é a vida do seringueiro...

 



Escrito por Felipe às 19h43
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