O Diário de um Acreano


Com esse acordo, não tem acordo! (Diário de um Acreano 60)

ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido no SOZA. Direto do meu Acre querido, a terrinha onde os agentes penitenciários começam o ano com uma reivindicação sensacional! Acreditem vocês que os mesmos querem lutar pelo direito de dormir durante o plantão noturno. Já imagino até a cena:
- Vem pessoal! Vamos fugir por ali e não façam barulho. Se o carcereiro acordar vai melar nossa fuga e o pior: vão querer hora extra por ter que trabalhar no plantão deles e vão onerar ainda mais os cofres públicos.
HA!HA!HA! Etâ bandido consciente! HA!HA!HA!
Esse meu Acre, como diria a Nem de Madureira, é uma bença!
*
Meus amigos, fora a gracinha acima no quartel, começo o ano irritado e já lançando uma nova campanha com o título: "Esqueçam o Acre, peloamordeDeus". Vocês sabem o que aprontaram com a gente agora? Na calada da noite da passagem do ano, com esse novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que visa preservar a "integridade" da língua de Camões, acreano passou a ser escrito com i, transformando-nos num esquisito e indigesto acriano. Nos tiraram a alegria contagiante do eeeeeee! e nos deixaram com um ressabiado iiiiii!

Segundo o novo acordo, "escreve-se com i, e não com e, antes da sílaba tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)];"
Entenderam? Nem eu.  

Lendo essa explicação, começo a me achar um prodígio por ter aprendido a falar, ler e escrever em português. Só fico imaginando como deve ser um i digital agora que descobri que existe o i analógico. Ha! Ha! Ha!

Em que pese minha santa ignorância vernácula e a minha eterna má vontade crônica que tenho com tudo que não concordo, eu pergunto: mas pra quê mesmo uniformizar a língua portuguesa entre os países de língua portuguesa? Qual é o problema, por exemplo, de Moçambique e Angola tomarem um rumo de uma língua afro-portuguesa, se lá o português deles já é diferente do nosso? Afinal de contas, a língua é uma coisa viva, principalmente, na boca das pessoas. A partir do momento em que a língua falada não segue mais os rumos da língua escrita, por que então modificar uma gramática já tão complexa pra uniformizar uma língua que já não é mais uniforme? Além do que, se formos observar o índice de alfabetização dos países de língua portuguesa no mundo como o próprio Moçambique com 62% de analfabetismo e Guiné Bissau com 56%, esse acordo corre risco de naufragar não por desobediência, mas por falta de quem cumpra-o.

E essa mudança foi atrapalhar quem? Quem? O Acre... a Geni brasileira! Parecem até que estão de marcação com a terrinha ultimamente. Só em 2008 o Acre já mudou de hora, cresceu lá pros rumos do Amazonas e agora mudaram nossa identidade. Por mais que alguns relaxados já falassem com som de i, já vou dizendo que o acreano escrito com qualquer outra letra que não o e, não tá falando com a gente. Eu hein! Com essa onda de mudanças, já tô até vendo a hora em que vão proibir de colocar o tucupi no tacacá, a farinha no feijão e, quiçá, vão inventar de mudar o nome do Acre pra Docinho, alegando que Acre é um nome muito azedo. Faça-me o favor!

Por isso, eu peço encarecidamente a todos: esqueçam do Acre! Deixa nóis aqui no cantinho, quietinho, bunitinho e caladinho. Ah! Não tem gente que vive falando que o Acre não existe? É isso mesmo pessoal. O Acre de fato não existe. Na verdade isso tudo que venho falando pra vocês nesses 6 anos eu escrevo em Copacabana, mais ou menos ali no posto 1, na Prado Júnior. É tudo coisa da minha cabeça... eu juro! Era uma pegadinha...hã?hã? Engraçado né? Aonde já se viu, falar que o Acre existe. Só doido mesmo! O Acre é uma espécie de Atlântida da floresta: todo mundo fala que existe, mas nunca ninguém viu. E como ninguém viu, não precisa ficar importunando, né não?

Ai Brasil: mira em nóis, mas erra!


17 de janeiro de 2009
Felipe Cruz Mendonça
Servidor público, acrEano e escrivinhador nas horas vagas

Leia também o Picaretas da Távola Redonda
www.picaretasdatavola.blogspot.com



Escrito por Felipe às 20h10
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