África que te quero preta (Diário de um Acreano 64)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário, nada pontual, mais lido lá pelas bandas do qualquer lugar. Direto da Babilônia brasileira. E o acreano que vos fala acaba de completar 30 voltas ao redor do Sol... tropeçando aqui, errando menos ali, sou exatamente o resultado do que fiz de minha vida nestes tempo todo. Reclamar do quê?
Como não é sempre que acontece, fui buscar meus trinta por ali, na Cidade do Cabo, África do Sul. Uma viagem belíssima, com descobertas fascinantes em um país lindo. Pra começar, a África que conheci não tem nada a ver com os preconceitos que povoam nossas mentes: temperatura beirando 15ºC com muito vento (o que diminui ainda mais a sensação térmica), com uma infra-estrutura de cidade moderna com serviços de 1ºMundo e, o mais curioso (e assustador), uma África branca apesar de 80% daquela população ser negra. Uai, como assim Felipe?
Calma, permitam-me contar, em poucas linhas, a história contemporânea sul-africana para entender onde estão os negros. A África do Sul foi o país que experimentou a mais rigorosa, cruel e detalhista política discriminatória que a humanidade já viu. Num momento que o mundo experimentava certa euforia “de que tudo vai melhorar” logo após a vitória aliada na 2ª.Guerra Mundial (1939-1945), os sul-africanos remaram contra a maré. A partir 1948, instituíram uma política que foi conhecida como o Apartheid. A mesma determinava que a minoria branca (africaners) do país seria a classe superior, enquanto que a maioria negra teria suas liberdades individuais tolhidas para beneficio dos brancos.
E isso significava na prática uma segregação social, geográfica e moral jamais (ou poucas vezes) vistas. Os negros ficavam em espécies de guetos chamados bantustões, conhecidos também como “a sombra das cidades brancas”. Ou seja, enquanto a “cidade branca” tinha o melhor da infra-estrutura, os negros (muitos deles expulsos da “cidade branca”) se aglomeravam nessas periferias que nem nos mapas tinham o direito de aparecer. Pra se ter uma idéia da loucura desse regime, sexo entre as raças era proibido e os negros naquele país eram obrigados a andar com uma espécie de passaporte interno que os possibilitava (ou não) acessar o centro da cidade e os locais dos brancos em determinado período do dia... afinal, alguém tinha que lavar, passar e limpar.
Claro que o custo de implantação de uma política discriminatória como essa era alto demais, tanto no que diz respeito à manutenção da máquina pública racista quanto aos conflitos deflagrados em diversas partes do país. Um dos líderes do movimento contra o Apartheid foi Nelson Mandela, um ex-boxeador e ativista político que ficou preso por volta de 27 anos por causa de sua luta. Com o fim do regime em 1994, Mandela foi um dos principais responsáveis pela transição política no país. Com uma enorme habilidade de agregar opostos e uma generosidade humanitária sem igual, conseguiu unificar o país a beira de uma guerra civil em torno de uma nacionalidade que nem ao menos existia, tamanho era o ressentimento dos negros contra aquela pátria que não os respeitava. Eleito presidente, Mandela deu início a uma nova África do Sul.
Hoje, 15 anos depois do fim do regime de exclusão, as feridas ainda estão abertas. Apesar de inicialmente, pelo meu olhar de turista deslumbrado com um tanto de insensibilidade, as coisas parecerem dentro da “normalidade” (como no Brasil, onde branco é rico e preto é pobre), é inegável que o racismo sul-africano ainda está nas ruas. A condição subalterna dos negros na Cidade do Cabo salta aos olhos. Numa aproximação pertinente (ou grosseira, como queiram), o fim do apartheid abriu a "senzala" e permitiu a livre circulação de negros na "casa grande". No entanto, os negros mesmo "livres" ainda servem aos seus patrões brancos como antes.
A Cidade do Cabo é belíssima. Pra se ter uma idéia, do pouquíssimo que conheci na Europa, prefiro o tantinho que vi na África. No entanto, fico imaginando o custo social e moral do processo de construção daquela cidade. Seus traçados urbanos e todo o seu ordenamento territorial foram desenhados pelo apartheid. É uma clássica cidade branca do regime racista, ou seja: negros distantes do centro e brancos próximos do centro. E quando havia pretos por perto, eles foram expulsos pra longe. Caso interesse, procurem a história do Distrito 6 na internet. Retrata fielmente o que falo.
Abro parênteses. Por favor, me permitam fazer uma comparação extravagante ou sem futuro como queiram. Não é raro que muitos de nós brasileiros digamos o seguinte: “Pelo menos lá o racismo era às claras, não esse racismo hipócrita que vivemos no Brasil”. Ou seja: racismo oficial seria melhor que o racismo hipócrita tupiniquim. Por mais descabida que seja a comparação entre o muito ruim e o péssimo, permitam-me discordar dessa máxima. A meu ver, dizer isso é achar que as políticas oficias de Hitler contra os judeus e tudo o que não fosse ariano, o escravismo oficial do Brasil ou qualquer outra política oficial racista que já tenha passado pelo mundo é melhor que o racismo velado. Não é. Recuso-me a acreditar que seja. Até porque, como preconceito não cai por lei, depois do racismo oficial, sempre surge a hipocrisia da sociedade. Se até hoje no Brasil, passados mais de 100 anos do fim do escravismo oficial, ainda temos as nossas chagas para curar, imagine o quanto a África do Sul, passados 15 anos, terá que passar. Fecho parênteses.
Para os negros do país e os vindos dos mais diversos países africanos, que estão muito presentes na sociedade da África do Sul atual, lhes cabe os trabalhos de garçom, atendente, pedinte de rua (ops!), flanelinha e outras opções tão dignas por um lado, mas no entanto menos respeitadas e valorizadas que as "profissões brancas" por outro. Hoje não é preciso mais ter o passaporte interno que permitia aos negros circularem (ou não) livremente pela cidade em determinadas horas. Mas o "passaporte econômico" (tão cruel quanto o outro) ainda os afasta dos locais nobres da cidade. Já vimos esse filme em algum lugar, né não?
Depois do fim do regime racista, a África do Sul não parou de crescer economicamente. No entanto, o abismo provocado entre negros e brancos naquele país, o fazem ser um dos países que possui a pior distribuição de renda do planeta. Apesar dos esforços do governo, os negros ainda têm muito que conquistar na sociedade sul africana. É uma luta que está apenas começando.
Mas no entanto, dito tudo isso, me apaixonei pela África do Sul. Ta aí uma boa recomendação: vamos para a África. Apesar da história recente, a país vem encarando os seus problemas (ou parte deles) com vontade de mudar. Com um povo de espírito leve e cordial, brancos e negros nos ganharam a cada interação confusa que fizemos com o nosso inglês de botequim. Aliás, não falar inglês lá é um detalhe que dificulta, mas paradoxalmente, nos aproxima ainda mais da generosidade africana ao mostrarem paciência e bom humor com a nosso “pobrema” de compreensão.
Pelo seu povo que é uma delicia e com gostinho de Brasil, pela sua história de erros e acertos, acho que temos muito que aprender com eles e eles conosco. Volto com vontade de conhecer as outras Áfricas multicoloridas. Aquele continente não é o que eu pensava e muito menos o que eu penso... deve ser muito mais.
08 de novembro de 2009
Felipe Cruz Mendonça
Servidor Público que dobrou o Cabo da Boa Esperança e escrivinhador nas horas vagas
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário casual mais lido lá na Sobral. Direto da terra que maltrata, mas retrata. Sorriem, é dia da independência do dependente.
E viva o Pré-Sal, o tira gosto insosso do nosso futuro!
Antes de qualquer coisa, peço desculpas às pessoas que reclamaram pela demora do diário dessa vez. Tá bom! Tá bom! Foi só minha mãe e meu pai... Mas confessa que você também sentiu falta... a vá! Eu, como um bom exemplo do nosso tempo, venho me dedicando mais ao trabalho do que as coisas lúdicas que nos dão vida e por isso estou longe das bobagens que escrevo. Mas hoje volto brevemente a este meu modesto e honesto palanque para contar das poucas coisas que sei e de muitas que nada sei.
Meus amigos, dessa vez gostaria de falar de uma pessoa e, pra tanto, já começo caindo em lugar comum. Por mais óbvio que possa parecer (e não menos estranho de se pensar), o fato é que gente é gente em qualquer lugar (até rimou!). Gente, minha gente, é outra coisa (imprecisa), diferente das estrelas (precisas). Na Arapixi, por exemplo, tem os do bem, os do mal, os tristes, os felizes, os bravos, os resignados, os quietos e.... a Dona Graça.
A senhora Maria Nobre de Oliveira, mais conhecida como Graça, é uma pequena agricultora da margem do rio Purus, da comunidade Maracaju. Mãe de sete filhos, logo nova ficou viúva e teve que se desdobrar para criar suas crianças da forma que foi ensinada e da forma que inventou. Uma dessas figuras fortes, construída unicamente por força de seus braços, riquíssima de VIDA e de espírito.
Sempre muito polêmica, falante e expansiva, lembro-me em 2004, quando estávamos começando o processo de criação da Reserva, que a Dona Graça era contra a criação. Afinal, o poder público mal passa por aqui e, quando passa, é para “proibir”? Sem muitas papas na língua dizia francamente “Isso aí, eu não quero não”. Tudo isso, pasmem, com muito respeito, generosidade e galinha caipira na panela pra nos receber. Lembro de uma avaliação que fizemos na equipe: “mesmo contra a Reserva, Dona Graça é uma das nossas principais aliadas.”
Nas reuniões que realizávamos e realizamos com as comunidades, a presença da Graça é sinal de confusão e bate-boca. Aliás, desculpe. Bate boca pressupõem alguém discutindo com alguém. Mas com a Graça não precisa nem do outro. Ela pede a palavra, se levanta e ai é chumbo do grosso pra todo mundo: é o IBAMA que não fiscaliza, é o peixe que acabou no lago, é o vizinho que caçou com cachorro, é a casa do INCRA que não chega e, não alivia nem pro filho, “esse menino bebe que é uma desgraça”.
Além de tudo isso que já é muito, talvez a graça que tem a Graça é que ela é poetisa e compositora. Suas histórias de vidas são permeadas por causos contados através de rima e música. Ela compõe sua própria trilha sonora. Sentar com a Dona Graça depois da janta é garantia de muitos causos da beira do rio e boas risadas. E pra todas as suas histórias tem sempre uma música ou um versinho pra ilustrar. Como da vez que uma família de vizinhos começou a espalhar boatos dos seus filhos e assim nasceu:
Galo de campina, “rexinol” de laranjeira
Não “assubo” na tua casa
Porque tem muita ladeira
“Seus cachorro” são muito bravo
E sua mãe é faladeira.
Isso é uma delícia, né não?
Por não saber ler nem escrever, suas lembranças é o seu caderno de anotações. As letras de suas músicas e versos são organizadas numa estante que, infelizmente, um dia vão se apagar. Vimos ajudando a colocar no papel suas músicas e seus causos pra que isso não se perca. Talvez tenha sido ela, com outros poetas da Arapixi, uns dos principais incentivadores dos versos que venho me arriscando a escrever de uns tempos pra cá.
No mais, acredito que a Dona Graça é uma personagem da Maria Nobre. Pouco conheço desta última. Acho que somente a carteira de identidade mesmo. A Graça é uma espécie de máscara, uma fantasia de carnaval alegre e comunicativa da Maria. A Nobre, talvez, esconda suas dores e tenha muito o que chorar e lamentar pela vida difícil e cheio de privações que leva. É de se imaginar que a Dona Graça reinvente a Maria Nobre todo dia para que ela não caia de cansaço e desanime.
Enfim meus amigos, resgatar a história desses bravos brasileiros anônimos e "invisíveis" aos olhos do Brasil "independente", só nos mostra o quanto somos dependentes ainda da falta de respeito para com os nossos filhos. A Nobre e a Graça, em meio a tanta indiferença e dificuldades impostas pela natureza e pelo descaso social, fizeram uma clara opção por ser feliz e se comunicar. E, por incrível que pareça, conseguem.
Essa Nobre é uma Graça! Sua benção!
06 de setembro de 2009
Felipe Cruz Mendonça Servidor Público, fã da Graça e escrivinhador nas horas vagas.
No Youtube tem 3 vídeos da Dona Graça cantando músicas de sua autoria. Tem até cantando Fuscão Preto.
O Estado sou eu... e tira a mão daí! (Diário de um Acreano 62)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do Diário mensal mais trimestral do Acre. Direto da aba do chapéu. E a última nem tão última assim aqui no Acre foi que não conseguimos ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Vou te falar viu! Esse Brasil tá de sacanagem com a gente. Nossa proposta era boa, caramba! Só faltava estrutura e dinheiro... mas estávamos cheio de boa vontade! Ninguém conta isso não?
*
Meus amigos, ando em falta com o meu prazer de tentar escrever. Mas um assunto que por hora me mobiliza, na medida do possível, é tudo isso aí... sacou? E dentro disso aí tudo, nada me faz preocupar tanto do que esse tal estado de coisas (hoje eu to tão claro quanto uma mulher na TPM né não?). O fato é que ligo minha metralhadora giratória e acerto essa bobagem que ganhou ares de verdade absoluta e de imexível que é a tal da democracia. Isso mesmo! Minha Geni de hoje é a falência da tal democracia representativa. Você outorgar às pessoas o direito de lhe representar sobre qualquer coisa e qualquer assunto que o valha é muito sério. Ainda mais nesse ambiente do "vem cá minha nega que eu quero farrear também" (minhas comparações hoje estão ótimas!). É por isso que eu lembro sempre: enquanto o público for visto como privado pelos representantes públicos que são eleitos pelo público brasileiro, os interesses privados sempre sairão por cima do interesse público. Entendeu? Nem eu!
Por isso mesmo, enquanto ninguém encara o público como público eu exijo limites a essa bagunça democratica. De agora em diante eu só voto com restrição de atuação. Isso mesmo! Eu quero (ai como sou autoritário!) que a urna eletrônica me ofereça opções do que aquele legislador poderá me representar. Por exemplo: não outorgo a ninguém o direito de discutir o seu próprio salário. Não quero, não quero, não quero! Dou até piti! (ui!!!). Quer outro exemplo? Eu proíbo, terminantemente, que os deputados tenham o direito de darem terras para grileiros na Amazônia. Se for preciso ponho até tachinha no trono do Sarney! Outra coisa: eu não elejo Deus e sim um mero deputado, por isso mesmo, não deixo que ninguém mude o horário do por do Sol em meu nome. Faço até beicinho...quer ver?
E sabe do que mais: às favas isso tudo aí! Me perdoem o destempero, mas escrevo sobre isso, principalmente, pelo absurdo que acaba de acontecer no Senado... aquele cabaré no formato de cuia que fica em Brasília. Hoje, dia 16, foi aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado o projeto de lei do senador tagarela da oposição, o senhor Arthur Virgilio (PSDB-AM), que acaba com os fusos horários no país. A matéria ainda será analisada em caráter terminativo pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. Se aprovado, o projeto de lei segue para apreciação da Câmara... aquele bordel do lado do cabaré.
Vocês devem lembrar o quanto o pobre autor dessas tortas linhas se mostrou indignado a alguns diários atrás pela mudança do fuso horário do Acre de forma arbitrária e "televisiva", eu diria. Todos nós acreanos tivemos que adiantar o relógio em uma hora. Agora o nobre senador do Amazonas, que na verdade fica em Brasília e não acorda no Amazonas e por isso tá se lixando pra quem acorda e dorme no Amazonas, propõe que todos fiquemos com o fuso de Brasília. Ou seja, no Acre 8 da manhã estará de noite.
Os argumentos do pobre senador, é que "o processo integraria diferentes mercados, além de facilitar transmissões de televisão, rádio e horários de viagens". Ou seja, o tal do mercado influindo mais uma vez no tal do humano e, mais uma vez, o lobby da Rede Globo, altera os rumos e os "durmos" do país. E ele complementa: "O interlocutor do governo na Casa, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) disse que o governo federal e os dos Estados são inteiramente favoráveis ao projeto."
Peraí? Quem é que tá a favor disso? Os Estados? Quem, ora bolas, são os Estados? São os mesmos eleitos que se outorgam o direito de serem mais reais que o rei e que têm a prepotência de acharem que são o Estado, num arroubo "generoso" aos moldes de Luis XIV, que num acesso de "humildade", disse há um tempo atrás que "O Estado sou eu"?
Perceberam? Tudo se passa em um nível em que não se pergunta a quem de direito e a quem irá ser afetado pela mudança de horário, pelo "justo" motivo desses senhores serem os representante democrático escolhidos ou comprados pelos seus currais eleitorais. Não sei quanto a vocês, mas não elegi ninguém pra mudar a hora do nascer do sol.
Por isso, que a saída pro Acre é pedir a independência do Brasil... como eu sempre digo. O Brasil atrasa o Acre adiantando sua hora. Com a nossa independência, teremos nossa hora de volta, o nosso Sol as 5 e meia da manhã e a Copa do Mundo vai ser nossa e a final em Santa Rosa. Sou acreano, não há quem possa!
16 de junho de 2009 Felipe Cruz Mendonça Servidor Público, escaldado e escrivinhador nas horas vagas
Com esse acordo, não tem acordo! (Diário de um Acreano 60)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido no SOZA. Direto do meu Acre querido, a terrinha onde os agentes penitenciários começam o ano com uma reivindicação sensacional! Acreditem vocês que os mesmos querem lutar pelo direito de dormir durante o plantão noturno. Já imagino até a cena: - Vem pessoal! Vamos fugir por ali e não façam barulho. Se o carcereiro acordar vai melar nossa fuga e o pior: vão querer hora extra por ter que trabalhar no plantão deles e vão onerar ainda mais os cofres públicos. HA!HA!HA! Etâ bandido consciente! HA!HA!HA! Esse meu Acre, como diria a Nem de Madureira, é uma bença! * Meus amigos, fora a gracinha acima no quartel, começo o ano irritado e já lançando uma nova campanha com o título: "Esqueçam o Acre, peloamordeDeus". Vocês sabem o que aprontaram com a gente agora? Na calada da noite da passagem do ano, com esse novo acordo ortográfico da língua portuguesa, que visa preservar a "integridade" da língua de Camões, acreano passou a ser escrito com i, transformando-nos num esquisito e indigesto acriano. Nos tiraram a alegria contagiante do eeeeeee! e nos deixaram com um ressabiado iiiiii!
Segundo o novo acordo, "escreve-se com i, e não com e, antes da sílaba tônica, os adjetivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos de i pertencente ao tema: horaciano, italiano, duriense, flaviense, etc.): açoriano, acriano (de Acre), camoniano, goisiano (relativo a Damião de Góis), siniense (de Sines), sofocliano, torriano, torriense [de Torre(s)];" Entenderam? Nem eu.
Lendo essa explicação, começo a me achar um prodígio por ter aprendido a falar, ler e escrever em português. Só fico imaginando como deve ser um i digital agora que descobri que existe o i analógico. Ha! Ha! Ha!
Em que pese minha santa ignorância vernácula e a minha eterna má vontade crônica que tenho com tudo que não concordo, eu pergunto: mas pra quê mesmo uniformizar a língua portuguesa entre os países de língua portuguesa? Qual é o problema, por exemplo, de Moçambique e Angola tomarem um rumo de uma língua afro-portuguesa, se lá o português deles já é diferente do nosso? Afinal de contas, a língua é uma coisa viva, principalmente, na boca das pessoas. A partir do momento em que a língua falada não segue mais os rumos da língua escrita, por que então modificar uma gramática já tão complexa pra uniformizar uma língua que já não é mais uniforme? Além do que, se formos observar o índice de alfabetização dos países de língua portuguesa no mundo como o próprio Moçambique com 62% de analfabetismo e Guiné Bissau com 56%, esse acordo corre risco de naufragar não por desobediência, mas por falta de quem cumpra-o.
E essa mudança foi atrapalhar quem? Quem? O Acre... a Geni brasileira! Parecem até que estão de marcação com a terrinha ultimamente. Só em 2008 o Acre já mudou de hora, cresceu lá pros rumos do Amazonas e agora mudaram nossa identidade. Por mais que alguns relaxados já falassem com som de i, já vou dizendo que o acreano escrito com qualquer outra letra que não o e, não tá falando com a gente. Eu hein! Com essa onda de mudanças, já tô até vendo a hora em que vão proibir de colocar o tucupi no tacacá, a farinha no feijão e, quiçá, vão inventar de mudar o nome do Acre pra Docinho, alegando que Acre é um nome muito azedo. Faça-me o favor!
Por isso, eu peço encarecidamente a todos: esqueçam do Acre! Deixa nóis aqui no cantinho, quietinho, bunitinho e caladinho. Ah! Não tem gente que vive falando que o Acre não existe? É isso mesmo pessoal. O Acre de fato não existe. Na verdade isso tudo que venho falando pra vocês nesses 6 anos eu escrevo em Copacabana, mais ou menos ali no posto 1, na Prado Júnior. É tudo coisa da minha cabeça... eu juro! Era uma pegadinha...hã?hã? Engraçado né? Aonde já se viu, falar que o Acre existe. Só doido mesmo! O Acre é uma espécie de Atlântida da floresta: todo mundo fala que existe, mas nunca ninguém viu. E como ninguém viu, não precisa ficar importunando, né não?
Ai Brasil: mira em nóis, mas erra!
17 de janeiro de 2009 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, acrEano e escrivinhador nas horas vagas
Isso precisa de uma vida (Diário de um Acreano 59)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do logo ali. Direto da terra do delegado Protógenes, aquele que provou por A mais B, os crimes de corrupção do Sr. Daniel Dantas, mas que no momento, por motivos de força maior, está passando por uns probleminhas por ter investigado o sr. Dantas que, como todo mundo já sabe, não poderia ser investigado. Afinal de contas, com a mídia na mão e com o presidente do STF como advogado, quem vai pegar Daniel Dantas? * Mas como, por incrível que pareça, não só de corruptos vive o Brasil, estive há pouco vivendo e convivendo por 16 dias uma vida que quase nada tem a ver com a minha, mas que me diz muito do que espero do futuro do meu país e do planeta. Foi um período de diálogo e convivência com um modo de apropriação da natureza que diferente do modelo devastador da nossa sociedade ocidental capitalista-industrial-monetária-etceteraetal, na qual estou inserido até a medula.
Passei todos esses dias na casa do Seu Antonio Souza de Queiroz, mais conhecido por Tota. Diferente de tantas outras expedições anteriores, quando íamos para floresta parando de porto em porto, visitando as famílias sem o tempo necessário pra responder perguntas básicas para um gestor de Reserva Extrativista, tal como "do que mesmo eu tô tratando?", desta vez tive o tempo e, principalmente, interesse (é preciso meu amigo...) de experimentar um pouco da dor e da delícia de se viver em uma condição tão, aparentemente, adversa.
O Tota mora na boca do igarapé Sossego, no rio Purus, mais ou menos no meio do caminho entre a cidade acreana de Sena Madureira e a cidade amazonense de Boca do Acre. Ou seja, ele está há dois dias de qualquer um desses centros urbanos e, morando junto com ele, estão todos os problemas causados pelo incrível "poder de invisibilidade" que essa população possui, como falta de educação, de saúde, de segurança, de respeito e todas essas "frescuras" que deviam ser universais a todos os homens.
O Tota é casado com a Dona Maria de Lourdes, mas que é conhecida mesmo como Dilurdes. A principal característica da Dona Dilurdes, além de todas as características que tem uma pequena agroextrativista e dona de casa, é o seu sorriso tão acolhedor e maternal que não tive dúvidas: adotei como minha mãe da mata. Tinha também os filhos Ediney e o Antônio. O Bimbinha, apelido do Ediney, é um menino muito bonito, com seus 16 anos que, por não ouvir, também não conseguia falar. Mas alegria e sorriso no rosto não lhe faltavam não. Já o Caçulinha, como Tota chama o Antônio, é também um moleque espertíssimo, cheio de vida e de igual sorriso franco. Aliás, é uma família, que alguns diriam, tem uma luz muito especial.
Foram dias de uma troca de aprendizagem enorme entre mim e aquelas pessoas: de um lado quem vos escreve, com uma visão de mundo e algumas coisas que teve a oportunidade de aprender a fazer (como ler, por exemplo) para ensinar e, eles, rindo do meu sem jeito para descascar uma macaxeira, e me ensinando a viver aquela vida cheia de significados e saberes. E, meus amigos, não têm jeito: é só nos deparando com o diferente, que conseguimos nos enxergar, refletir sobre quem somos e, quem sabe, mudar. Eu acho que venho mudando nesses anos todo de Acre.
Um episódio curioso em que vivi naqueles dias foi quando eu estava no lap top organizando fotos e os dados que precisávamos levantar para o trabalho, quando o Tota foi ver o que eu estava fazendo e fascinado afirmou enfaticamente:
"Felipe, pra mexer nesse bicho ai precisa de um estudo."
Achei curiosa aquela afirmação dele. Colocado assim no singular, talvez não dê conta de toda a complexidade que é a formação escolar e acadêmica de uma pessoa. Toda aquela acumulação de estudos realizados, e vem o Tota chamando "apenas" de estudo.
No entanto, logo me lembrei que para ele foi negado qualquer tipo de escola formal. Ao Tota foi negada a possibilidade de estudar, ainda que a educação seja direito de todos assegurado na Constituição. Lá fala: "todos tem direito a educação", e não fala nada do tipo "todos, menos os que moram longe pra dedéu". Ali percebi que para ele, o estudo é tão inacessível que até mesmo no singular, ganha conotações plurais.
De minha parte aprendi muito com aquela família. Hoje já sei plantar e descascar uma mandioca (sem maldade, por favor!), escolher bem a maniva pra que vingue melhor depois, estou aprendendo a dirigir canoa no rio. Ainda não aprendi a jogar tarrafa pra pescar, mas já fui motivo de risada ao tentar, aprendi que rezaderia pode ser melhor que hospital, que em alguns lugares a castanha já começa a dar em novembro mesmo e que domingo, segundo o Tota, é dia de ficar em casa pra não correr o risco de não saber mais voltar. Enfim, foi um período de várias pequenas lições que formam esse modo de viver diferente do meu tempo (internet X canoa) e de como costumo levar minha vida (urbana X rural). Várias lições que não se aprende na universidade ou em qualquer outro lugar que não seja vivendo.
E por isso, ao me despedir do Tota e da Dona Dilurdes, reconhecendo todo aquele saber acumulado com o dia-dia na mata, afirmei também sem dúvida nenhuma: - Tota e Dona Dilurdes, pra saber de tudo isso ai, precisa de umA vida. Sua benção meus amigos!
27 de novembro de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor Público, com estudoS, atrás de umA vida e escrivinhador nas horas vagas.
Se você quiser conhecer um pouco mais o Tota, veja o vídeo abaixo onde ele conta um pouco de como é a vida do seringueiro...
Meia dúzia de iluminados (Diário de um Acreano 58)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido da terra da ABIN, o órgão de espionagem que não pode, por força de lei, grampear ninguém. AH! AH! AH! Só rindo mesmo... saca o time de futebol que não pode fazer gol? É por aí... Direto da terra do Sr. Gilmar Mendes, o nosso presidente do STF, que nas horas vagas, faz um bico como advogado do corrupto Daniel Dantas. Afinal de contas meu amigo, você está no Brasil e isso já não devia te soar estranho.
* E o Pré-Sal? Tão dizendo por aí que o petróleo do pré-sal vai salvar o Brasil... Ai meu Deus! Lá vai nóis de novo numa canoa furada. Não sei quanto a vocês, mas pra mim pré-sal é tira gosto insosso.
Em pleno avanço das tecnologias que necessitam cada vez menos de derivados de petróleo (carro elétrico ou a hidrogênio, por exemplo), o Brasil celebra seu elefante branco como se, por causa dele, tiraremos o pé da lama, trazendo o milagre da redenção do tão propalado país do futuro. Onde foi mesmo que o petróleo trouxe ganhos para a população toda de um país e não a uma meia dúzia de petro-empresários? Pra onde estamos indo mesmo?
A verdade é que ainda vivemos de degradar o planeta. Nossa matriz energética baseada em carvão e petróleo é a principal fonte de todos os nossos pesadelos ambientais e que, hoje, coloca a vida da humanidade em risco, como o aquecimento global.
Esse ano no Acre, esta sendo de longe, o ano mais quente que já vivi. As causas das altas temperaturas ainda é alvo de várias divergências. No entanto, não dá para negar que o planeta está ficando cada vez mais quente. Essa secura do tempo e seu calor, já aumentaram as mortes por fome na África. Ai você me pergunta: "Mas está faltando comida no mundo para os africanos estarem morrendo de fome? Aí eu te respondo: "Claro que não meu amigo! E quem foi que disse que comida é pra matar a fome? Comida é comódite pra gerar lucro pra meia dúzia de afortunados... você já devia saber disso!"
E a tal da economia? Estamos acompanhando nos últimos dias uma crise sem precedentes na economia mundial, motivada por uma meia dúzia de irresponsáveis banqueiros privados norte-americanos que resolveram fazer dinheiro em cima de títulos que poderiam virar dinheiro, mas que ainda não eram. Advinha o que aconteceu? Não viraram. E você sabe o porque isso aconteceu? Porque existe uma política econômica propalada como a salvação do mundo todo chamada de liberal ou neoliberal. Essa corrente prega a total liberdade do sistema econômico, não permitindo qualquer intervenção estatal na economia. E foi exatamente pela falta de regulamentação do Estado na economia, que estamos reféns de meia dúzia de irresponsáveis senhores "donos do mundo" que vivem de especular no mercado financeiro. Sabe o que acontece quando o tal mercado está em apuros? Corre rapidinho pro colo dos cofres públicos atrás de socorro. Vejam vocês que o governo estadunidense preparou um pacote de medidas na ordem de 700 bilhões de dólares PÚBLICOS para socorrer o mercado financeiro PRIVADO da bancarrota total. Aí eu te pergunto uma coisa: alguém de vocês já teve acesso aos lucros de algum grande banco? Sei lá, por exemplo: o Banco Itaú já te pagou um picolé que seja? Não? Mas pode acreditar: quando o negócio apertar pro lado deles, eles vão te pedir arrego. E o pior: você não vai negar!. É exatamente isso que está acontecendo nos EUA: o lucro do mercado é de meia dúzia, mas seus prejuízos são de todos. O Brasil já passou por isso também no governo FhC, com o famigerado PROER, que injetou cerca de 30 bilhões de dólares nos anos 90 para salvar meia dúzia de banqueiros da falência, entre eles figuras nada idôneas como Salvatore Cacciola e Daniel Dantas.
Aliás, me permitam um parênteses: Vocês sabem quem é o homem mais rico do Brasil? É o senhor Eike "Luma de Oliveira" Batista. Sabe de onde ele tirou sua riqueza? Garimpando na Amazônia através de trabalho escravo e conluios com governos corruptos. Perceberam? A maior fortuna do Brasil (cerca de 16 bilhões de dólares) é feita ilegalmente detonando a floresta que é de todos e limitando o lucro que é só dele.
Mas ai você me pergunta; "O que tem a ver o pré-sal com aquecimento global, com fome na África, com o Mercado Financeiro e com o ex da Luma?"Sabe o que é? É que to cansado desse mundo feito pra meia dúzia de "escolhidos". A irresponsabilidade humana com a economia, com a fome do próximo e com a natureza passou de qualquer limite. Hoje, as grandes decisões do mundo estão na mão de não mais do que 500 pessoas no mundo inteiro. São elas que decidem para onde vai ou sai o dinheiro, quem vai ou não vai comer, quem entra ou não entra em guerra...enfim, a humanidade de 6 bilhões de gente está na mão de 500 (quinhentos) pessoas que surfam a favor de seus interesses políticos e econômicos. Ou seja, meia dúzia de iluminados! Etâ mundo véio com portera... e sem moral!
01 de outubro de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor Público, com ressaca civilizatória e escrivinhador nas horas vagas.
Atenção meu amigos andantes por esse espaço, coloquei três crônicas de minha autoria para concorrer como melhor crônica do site www.literaturalivre.com.br. Para que possa ter algum sucesso, precisarei do apoio de vocês. Entrem e votem nas crônicas no endereço que deixarei logo abaixo.
Duas das crônicas escritas, tirei do Diário. Outra foi do nosso blog Picaretas. Deêm uma olha... ah! pra vota tem que se cadastrar no site. Fica também o incentivo pra que publiquem seus textos também.
Muito obrigado.... Felipe, o carioca do Acre
O amor está em crise... Viva o amor! http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=262&titulo=O%20Amor%20está%20em%20crise...%20Viva%20o%20Amor!
Se tu não vir, tem como eu ir? http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=263&titulo=Se%20tu%20não%20vir,%20tem%20como%20eu%20ir?
Vocês precisam ser de Hollanda http://www.literaturalivre.com.br/?area=2&id=264&titulo=Vocês%20precisam%20ser%20de%20Hollanda
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido em Macapá, a terra do riozão. Nóis tarda, nóis falha, mas nóis vorta! Direto da terra da Pecuária: a cultura nacional.... MUUUUUU!!!!!!! E vocês sabem como era anunciada a terrinha nos jornais paranaenses na década de 70? Acre, o filé mignon da Amazônia. E dá-lhe boi na floresta! E sabe como era Rondônia? Rondônia. Calma! já já você chega no Acre! Ha!Ha!Ha! Rondônia, o colchão duro da Amazônia. *
Meus amigos, antes de tudo, queria pedir desculpa pela demora do número 57 desse fracassado diário que vos perturba mensalmente. O quê? Não perceberam o atraso? Tudo bem, engulo mais essa!
A verdade é que o Gomes, o sujeito que me fornece as crônicas, começou a cobrar mais caro pelas mesmas, dizendo que tava com o tempo apertado e que não podia mais se comprometer em escrever as bobagens que publico. Ainda veio com um papo que já não achava justo eu assinar os textos dele e que agora ele queria aparecer também... saca o compositor que quer cantar? Mais ou menos isso... aliás, o Gomes é o primeiro compositor de crônicas que eu conheço. Ele compõe e eu, com a minha tremenda cara de pau, interpreto. Percebam: não é plágio, é interpretação CRÔNICA! Normal, né não? Agora ele vem reclamar.... vê se pode! Como se eu não pagasse caro pelas histórias... e como é caro!
E mesmo dando uma puxada no saco do Gomes, ele de fato me deixou na mão esse mês. Mas para não deixá-los em paz ou a ver navios, me coloco o desafio de conduzir por conta própria este mensário diário.
Por isso vou lhes contar uma história. Como vocês já devem ter percebido, o Acre é um Estado onde histórias deliciosas acontecem. No entanto, esse acontecido que contarei a vocês é uma tragédia. Aliás, parece ter saído da cabeça de Nelson Rodrigues. Quem me conta ela é o Abrahim Faraht, o Lhé.
O Lhé é uma figura ímpar em Rio Branco, uma espécie de Profeta Gentileza do Acre. Uma lenda viva da terrinha, de uma generosidade e bondade tremenda... um patrimônio acreano.
Ele conta que no início da década de 40, no Acre, o presídio de Rio Branco ficava localizado no centro da cidade onde há pouco tempo funcionava a Prefeitura. O Adolfo, um agente carcerário do local, era um sujeito aparentemente normal e que era apaixonado pela Lindalva. A Lindalva era professora do grupo escolar e passava diariamente na frente do presídio a caminho de casa. Um belo dia Adolfo resolveu declarar o seu amor a Lindalva. Ela, no entanto, disse a ele "que seu coração já tinha dono". Adolfo, porém, não aceitou muito bem a rejeição da professora e resolveu não deixar barato a história.
Havia um preso na cadeia com o nome Januário, que era de Feijó, no interior do Estado. Adolfo começou a dizer para Januário que conhecia uma mulher que estava interessada nele, mas que não se apresentava a ele por se sentir envergonhada. Januário ficou encantado com o que ouviu, afinal, ele era um presidiário solitário que pouco recebia visita da família do interior e, convenhamos, alguém se interessar por um preso não é lá muito comum (ou é?).
Aquela história começou a acalentar o pobre detento nos seus dias de solidão no cárcere. Vendo a empolgação de Januário, Adolfo começou a escrever cartas para ele como se da suposta amada fosse. Eram cartas apaixonadíssimas que falavam de amor para sempre e prometendo esperar o tempo que fosse por ele em liberdade. Adolfo começou a escrever cada vez mais, deixando Januário, já apaixonado pelo seu amor misterioso aquela altura, cada vez mais inquieto atrás de saber quem, afinal, era sua paixão secreta.
Lindalva, quando passava em frente à cadeia, via sempre Januário também trabalhando na praça, nos serviços de manutenção e cumprimentava-o normalmente com "bom dia", "boa tarde", como a boa educação pede. Aliás, pelo que o Lhé conta, as celas naquela época tinham janelas para rua e Lindalva educada que era, cumprimentava inclusive os detentos. Era uma "relação" que nunca havia passado desses cumprimentos formais do dia-a-dia.
Com a insistência de Januário em saber quem era sua amada, Adolfo resolveu lhe falar. E, em mais um dia que Lindalva passava pela rua, Adolfo a apontou a Januário e disse: "Aquela é a sua amada".
Januário ficou boquiaberto por nunca ter suspeitado de Lindalva, aquela moça que passava pela rua todo dia e que nunca demonstrou um olhar mais insinuante para ele. Enfim, ela deve ser acanhada e está com medo de se declarar a mim, pensava ele. E Lindalva, nem suspeitava de tal invenção sórdida de Adolfo.
Com a revelação de quem é seu grande amor, e cada vez mais entusiasmado e acalentado pelas "cartas de amor de Lindalva" que não paravam de chegar, Januário foi ficando cada vez mais apaixonado por ela e inquieto com a situação. Ao mesmo tempo em que ela não declarava abertamente quem era, Januário também não queria demonstrar que sabia do "amor de Lindalva", por medo, timidez ou pelo simples fato daquela história ser tão importante para ele durante aqueles meses, que ele tinha medo de estragar tudo.
Adolfo ao perceber que a trama começava a tomar o rumo que sempre imaginou, vendo Januário cada vez mais obcecado por aquela história, resolveu dar o desfecho a farsa. Escreveu uma outra "carta da amada" para o preso, porém, acabando com tudo, dizendo que "seu coração já tinha outro dono", como Lindalva havia dito a ele, e que não esperaria mais pela sua liberdade.
Aquela carta transtornou o coitado do Januário, fazendo-o sofrer de amor por muitos dias. No entanto, depois de um pouco já refeito de sua decepção amorosa, Januário resolveu se vingar: "Se ela não vai ser minha, não será de ninguém." E no dia 25 de novembro de 1941, enquanto capinava a praça, e Lindalva fazia seu percurso diário em frente a delegacia retornando para casa onde sua família estava nos preparativos para o seu casamento que aconteceria dali há um mês, ele pegou o facão com que trabalhava e atacou Lindalva na traição, matando-a ali mesmo.
O episódio correu a cidade toda, transformando-os no assunto do final daquele ano, onde todos queriam saber sobre Januário e Lindalva, a trágica história de amor onde Lindalva morreu de amor... mesmo sem saber!
13 de agosto de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor Público, nelsonrodriguiando e escrivinhador (ops!) interprete de crônicas alheias nas horas vagas
Local ou Global? Eis a questão... (Diário de um Acreano 56)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido lá pelas bandas do não sei onde. Direto da terra do Tiãozinho Hora Certa... o nosso Odorico Paraguassu acreano. Em um delírio de "humildade extrema", mandou a real: "Vamos deixar de lado os entretantos e vamos direto aos finalmente. Eu quero que a hora do Acre mude e assim será." Viva Odorico! Viva! Viva! É assim que eu gosto de político: muda a hora do pôr do Sol na caneta... sensacional!
- Mas Felipe, isso não está certo não. Uma medida dessas tinha que consultar a população que será afetada pela mudança das horas. Isso altera todo o dia-a-dia das pessoas. - Lá vêm os pessimistas. Ô povinho negativo... deixa que o homi sabe o que faz! O Tiãozinho joga o povo pro futuro e vocês ficam ai garrado no passado! Faça-me o favor! Tô certo ou tô errado? AH! AH! AH! Que Plácido de Castro nada... quem inventou o Acre foi o Dias Gomes! AH! AH! AH! Plim! Plim!
* Deixando o (con)fuso horário do Acre de lado, por esses dias andei revisitando algumas linhas que venho escrevendo e os aporrinhando desde que cheguei no Acre, e me deparei com a crônica que eu falo sobre a Rádio Cipó e a forma de comunicação entre os moradores da floresta. Era o Diário 18 e a resgatei publicando-a no blog dos Picaretas (www.picaretasdatavola.blogspot.com). A partir dos comentários dos amigos e leitores do blog, me trouxe uma outra reflexão.
Sempre lembrando, é claro, que a minha escrita é irresponsável e não pretende ser mais do que é: uma completa bobagem. Mas como ninguém sabe da verdade mesmo, e quem ousa dizer que conhece a verdade é porque está mais perdido do que os outros, me atrevo a cutucar esse punhado de interrogações que nos assola. Acompanhem o raciocínio por favor...
Pra muitos que não conhecem, as famílias que moram na floresta, em geral moram nas margens dos rios e lagos e, no chamado centro. O centro é quando a casa fica localizada na floresta fechada, onde você precisa se deslocar das margens dos rios para o meio da mata. E são em lugares, muitas vezes, distantes das cidades próximas, onde demora-se de barco ou de pés, horas, dias ou semanas de viagem. É impressionante a capilaridade que essas populações alcançaram em busca da borracha. E como a lógica da área de cada família não é por lotes matematicamente medidos, elas entre si ficavam muito distantes uma da outra, porque sua unidade de medida principal eram as estradas de seringa (caminho que o seringueiro percorre tirando o látex das seringueiras. Começam e terminam em um mesmo lugar), que podem medir de 100 à 1.000 hectares. Em geral cada família possuía de 3 a 5 estradas de seringa, formando assim as colocações. Enfim, isso é uma outra história... o fato é que pelas grandes áreas em que viviam, um núcleo familiar ficava e fica muito distante uma da outra.
E, por incrível que pareça, essa distância toda criou laços fortes de compadrio estabelecendo uma espécie de pacto entre essas famílias que os permitem viver ali, tão distante do que nós, cidadinos que somos, consideramos indispensável. Sem acesso a meios de comunicação, as famílias formam uma espécie de telefone sem fio, que levam e trazem noticias, recados, encomendas... enfim, uma espécie de "Rádio Cipó" que ecoa pelas matas os assuntos que interessam aquela população. E podem acreditar: do mundo que lhes dizem respeito, eles sabem tudo!
E vez ou outra, é comum chamarmos essas famílias de "populações isoladas da floresta". E é aí que eu questiono: Como assim população isolada? Será que nós, urbanóides que somos, estamos tão integrados assim e tão por dentro do que acontece ao nosso redor? O que, afinal, é estar isolado?
Cada vez mais acredito que até o conceito de "isolado" é relativo. Tudo depende de onde você observa. O seu Raimundo da Colocação Boi Não Berra, conhece exatamente quem é a família que está a três horas de barco da sua casa ou a família da Dona Páscoa, que fica lá no centro a oito horas "de pés". E olha que, em geral, são tudo cumpade e cumade. Será que você ai, sentado no seu computador, esse instrumento fonte de grande parte da solidão moderna, conhece o seu vizinho de porta? E o que mora lá no andar de cima? Você acanhado que é, teria o acesso e a intimidade de pegar uma xícara de açúcar com o seu vizinho mais próximo?
Dominar a internet te faz saber em tempo real a temperatura das Filipinas, quem foi o campeão nacional da Bielorússia ou se o Ronaldinho pega travesti ou não... enfim, o computador e a internet transformaram-se no grande paradoxo moderno: te coloca em contato com o mundo inteiro ao mesmo tempo que te isola cada vez mais. E você aí, com cara de "globalizado" hein?! Meu amigo, esqueça o mundo e encare o local... é ele que vai te estender a mão primeiro.
Afinal de contas, saber se a Bovespa caiu ou não pode até te ajudar a ficar mais rico, mas não te ajuda em nada quando você chega em casa e percebe que perdeu a chave da porta, o celular quebrou e você não sabe o nome do vizinho pra pedir um telefone emprestado. É aí que eu te pergunto: quem é o isolado cara pálida?
30 de junho de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, mais isolado que o Seu Sabá e escrivinhador nas horas vagas
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido no CEMA. Direto do Acre, onde o futuro já começou... em junho vamos avançar uma hora, rumo ao porvir. Já estamos ansiosos em saber as próximas vontades da Globo, afinal de contas, no nosso projeto "Ninguém segura esse Acre" esperamos chegar ainda em Greenwich... o chá das 5 da Rainha vai ter tapioca e tacacá... Marrapaiz!
* Vocês viram: a ministra Marina pediu pra sair. Há muito o Lula queria tirar a Marina do ministério. Ele gritava pra ela
- PEDE PRA SAIR! PEDE PRA SAIR! E ela não saia de jeito nenhum, até que o presidente perdeu a paciência - AH É! NÃO VAI SAIR? O ZERO2 TRAZ A MANGUEIRA. - Mas presidente, o senhor quer dizer o Mangabeira não é isso? - MANGUEIRA OU MANGABEIRA TANTO FAZ... TUDO DÁ MANGA MESMO. TRAZ LOGO ZERO2! HA! HA! HA! A Marina caiu fora enjoada de tanta manga que chupou! HA! HA! HA!
A verdade é que, noves fora e toda essa campanha de eterna mitificação da figura da ex-ministra, a gestão Marina Silva a frente do Ministério não foi das melhores não. E não to falando da falta de espaço que ela tinha no governo Lula não. Já era esperado e ela sabia que não teria espaço. Ela deixou-se fazer de marionete por esse governo (des) envolvimentista que buscava no seu prestigio uma "chancela verde" as besteiras feitas ao meio ambiente. Ou seja, foi mais fiel ao seu partido e a esse governo que ao próprio meio ambiente, além de ter tido a soberba de pensar que sua ausência era pior que sua presença. Durante o governo Lula foi uma das mais fiéis ao presidente (está no governo desde o primeiro dia... nem o ministro da fazenda ficou tanto), sofreu diversas pressões durante sua passagem no ministério e quando viu que sua imagem se queimaria ao apoiar tanto esse governo, saiu como vítima. Tadinha dela! Enfim, contrapor uma biografia louvável (biografia louvável é currículo de competência?) e sua figura pessoal frágil em contraposição ao Sapo Barbudo maldoso que não gosta de natureza, tornando-a vítima não nos ajuda em nada ao fazermos uma avaliação isenta (isso existe?) do seu desempenho e ainda reforça a sua imagem de mito que sempre foi criada em torno dela. E meus amigos, triste o país que constrói os seus mitos e os joga em cargos públicos... afinal, mitos são o que são... apenas mitos!
Falando na Marina começo a me lembrar dos momentos que lutamos contras as bobagens realizadas na gestão ambiental do Brasil nesse período. Além de lutarmos contra o desrespeito aos servidores (que muita vezes nem cito essa questão pra não parecer uma birra meramente corporativista), lutamos também contra o desmonte do IBAMA. E me orgulho muito de ter participado do movimento contra a divisão do órgão em 2007, do qual surgiu o Instituto Chico Mendes que cuida (ou cuidará um dia) das Unidades de Conservação. Durante essa luta, que realmente nos desgastou pessoalmente e emocionalmente, conseguimos ou tentamos mostrar para a sociedade o porque éramos contra a divisão. Hoje, um ano depois, fico em um misto de angústia e tranqüilidade. Angustia em ver que não está dando certo (afinal de contas, dividido ou não a nossa missão tem que dar certo) e tranqüilo por estar se confirmando muitas das coisas danosas que prevíamos que iria acontecer com a divisão mostrando que o nosso movimento tinha razão de ser e um objetivo bem maior que os nossos salários, que chegaram a ser cortados. Sabe aquele sentimento meio mesquinho e irônico do "eu te disse!" "eu te disse!", que por sermos humanos em demasia, vira e mexe nos acomete? É isso que ando sentindo... confesso!
No meio disso tudo, é claro que histórias engraçadas aconteceram. Quando é que elas não acontecem? Durante o movimento contra a divisão, íamos muito a televisão para nos manifestar o porque éramos contra a criação do Instituto Chico Mendes. Foi quando estava no meu bar preferido com amigos e o seu Gerson, o dono do boteco, veio entusiasmado...
- Felipe, você está de parabéns. Vi ontem sua entrevista na TV e concordo completamente com que você disse. - Rapaz, que legal então que você entendeu a mensagem. Nossa luta é por uma gestão ambiental digna seu Gerson. Fico feliz com o seu apoio. - Isso mesmo. Sabe de uma coisa, eu até sou do partido, mas nunca gostei do cara. - Mas ele também não é do partido... o Capobianco (secretário-executivo do ministério) não é de confian... - Marrapaiz, tu foi na televisão e falou mal do cara. Tu é corajoso hein! - Que nada... aqui ninguém conhece o Capo... - Mas como não? Aquele tal do Chico Mendes era um baderneiro e um beberrão de uma figa! Um arruaceiro! - Hâ? Mas.... - Aquele sujeitinho invadiu a terra do meu pai. - Mas o problema não é o Chico, é o Instituto Chi..... - Eu achei é bem feito ter morrido. Se não fosse o Darli, eu é que tinha atirado no gaiato. - Mas o Chico Mendes é muito importante para a luta ambient.... - E você tá de parabéns por ir na televisão e desmascarar o sujeito. Corajoso viu! - Mas eu não falei mal do Chi... - Oh Zé! Um frango a passarinho pra essa mesa aqui... e é por minha conta viu! - Obrigado seu Gerson, mas está havendo um equivoco... não estava falando mal do... - Zéééé, aproveita e traz caldinho de feijão caprichado pro povo aqui também! - Mas seu Gerson o senhor não entend.... - Ah esqueci! A rodada de cerveja também é por minha conta. - Mas... como? Cerveja? - Isso mesmo...por minha conta! - Mas como era um beberrão aquele baderneiro né não seu Gerson! Uma lástima! - Marrapaiz! Não to dizendo...
28 de maio de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, pô! Mas era cerveja né... e escrivinhador nas horas vagas
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pelos Senadores (ops!) Senhores do Tempo. Direto do Acrean Way of Life. Meus queridos e queridas é com muita alegria que informo que o Acre cresceu. É isso mesmo, estamos em plena ereção! A pouco o Supremo Tribunal Federal encerrou uma disputa territorial de 26 anos entre o Amazonas e o Acre, onde a terrinha ganhou 1.184 km² na área da divisa. Toma essa Manaós! ... agora só falta saber o que fazer com esse pedaço de mais pobreza, de mais desamparo, de mais ausência. Mas tudo bem! Como diria o outro: miséria pouca é bobagem. Vem pra nóis!
E para os que pensam que pretendemos parar por ai, estão muito enganados. Já temos planos ambiciosos de expansão na Sul-América. A oeste esperamos em 2020 já dominarmos Machu Pichu e um ano depois, segundo nossos estrategistas, já estaremos na Serra da Mantiqueira. Só não queremos o mar, porque aí perderíamos a desculpa de ir para Fortaleza... e, sabe como é né: tem certas tradições que não se mexem.
* E o Acre nas últimas semanas não só se expandiu, como resolveu brincar com o tempo. O fato é que esse modesto geógrafo que vos fala, teve o privilégio de ver na última semana como se altera um fuso horário. Pode parecer pouco, mas pra nós da Geografia é muito importante... eu diria que presenciei um momento épico. Imagino que seja algo similar a emoção que um biólogo tem ao ver uma mitocôndria respirar, de um astrônomo ao observar o alinhamento impressionante das Três Marias, a Lua e a Terra com o seu nariz, ou então de um botafoguense vendo seu time campeão. Antes de irmos direto ao assunto, um pouco da Geografia do tempo: imagine a Terra como uma mexerica com 24 gomos iguais. Se toda circunferência tem 360°, assim como a mexerica, cada um desses 24 gomos tem 15°. E é exatamente assim que se determina as 24 horas do dia. Cada gomo da mexerica ou fuso da Terra corresponde a uma hora, contadas a partir do Meridiano de Greenwich. Essa é a convenção, amparada em teses cientificas e ratificada por vários países em uma conferência internacional realizada em 1884 na Inglaterra. No entanto nem sempre esses gomos obedecem sua hora estabelecida. Para atender questões políticas e financeiras (sempre elas), os fusos são ajustáveis. É por isso que Brasília tem o mesmo horário de Buenos Aires, onde o correto seria a capital portenha estar a uma hora a menos do Distrito Federal, por exemplo.
No Brasil, até 1913 a hora no país era a mesma para todas as regiões. Foi uma lei deste ano que determinou a hora legal no país, estabelecendo que horário que deverá ser adotado em cada canto desse país continental que vivemos, de acordo com as regras internacionais. E essa lei estabeleceu que o Brasil teria 4 horas diferentes, e que o Acre seria o único Estado brasileiro junto com alguns municípios do Amazonas que ficaria no fuso de duas horas a menos de Brasília.
Dito isso, a verdade é que na semana passada foi decidido no senado federal que o Brasil não terá mais 4 fusos horários. O Acre avançará uma hora para assim ficarmos uma hora apenas do horário de Brasília. No entanto, as coisas não se dão assim ao acaso meu amigo. Tudo nesse mundo é uma construção... ou não, como diria Caê. Você já deveria saber!
Existe toda uma receita que envolve política, futebol, televisão, oportunismo e muita bobagem, que nos diz muito sobre como as coisas acontecem em terras tupiniquins. Ela é meio enjoativa, mas anota aí o passo a passo:
Primeiro você pega a portaria 1220/07 do Ministério da Justiça que obriga as emissoras de televisão a ajustar toda sua programação de acordo com o fuso horário das regiões onde ela passa, em consonância com o que pede o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Depois você mistura bem com a principal Rede de Comunicação do país, a Rede Globo, e coloque-a contra a tal portaria 1220/07, uma vez que a forçará ajustar a sua programação, nos locais com fuso horário diferente do de Brasília. Ou seja, ela vai ter que fazer uma programação para o fuso menos 1h de Brasília (Manaus, Porto Velho, Cuiabá, Campo Grande) e outra programação diferente para o fuso menos 2 horas onde apenas o Acre se encontra. Junte a isso atitude da Globo em bagunçar toda sua programação, buscando colocar a população contra a portaria que a obrigou alterar a programação, colocando novela das sete depois do Jornal Nacional, passando todos os jornais da emissora em VT e o futebol de quarta-feira agora também não é ao vivo. Detalhe: a portaria não diz nada sobre os programas ao vivo, portanto, elas poderiam ser passadas na hora que sempre passou. Mas como a intenção é demonstrar força e forçar o governo para que reveja a portaria de classificação etária, é sempre bom dificultar!
Logo depois, você coloca uma colher de chá da negativa do Ministério da Justiça em adiar mais uma vez a entrada em vigor da Portaria (ela já havia sido adiada por 6 meses a pedido da Globo). Com isso, vendo que não conseguiria protelar a portaria 1220/07 mais uma vez, os Marinho optaram em ao menos diminuir o prejuízo.
Agora você deixa descansar a massa por cinco minutos. Depois, você convoca uma xícara de uma reunião de emergência, sob pressão da Globo, com procuradores do Ministério Público Federal, o ministro da Justiça, Tarso Genro, e os senadores da base governista Romero Jucá (PMDB-AL), Tião Viana (PT-AC), Fátima Cleide (PT-RO) e Valdir Raupp (PMDB-RO), pra ver como dar aquela "mãozinha" para a Vênus Prateada.
Dessa mistura com essa reunião, você tira aquele projeto de lei que tava meio sumida no Senado, de autoria do senador Tião Viana, que altera o horário do Acre para menos uma hora em relação a Brasília. Ai você me pergunta: Mas porque? Ora, pra ganhar gosto, como não! Agora pelo menos a Globo não precisaria fazer uma programação exclusiva de menos duas horas só para o Acre. Os entendedores do assunto dizem que diferentes programações afetam diretamente o faturamento da emissora e suas afiliadas nos Estados. E não podemos esquecer que são quase 20 milhões de brasileiros que vivem com a hora diferente de Brasília.
Daí, quatro dias depois da entrada em vigor da Portaria 1220/07 e no mesmo dia da reunião de emergência, você liga o forno e coloca o Projeto de Lei aprovado, que altera o fuso horário do país, para assar em caráter de urgência, urgentíssima.
Daí em diante, é só esperar a sanção presidencial e servir a vontade.
Pois é assim que se altera um fuso horário meus caros e caras. De minha parte, na verdade, sempre quis que o horário do Acre se alterasse pra ficar mais próximo do horário de Brasília, o que facilitaria no meu trabalho e no meu lado pessoal. Mas isso não me deixa achar certo essa tomada de decisão totalmente arbitrária, oportunista, sem qualquer consulta da população acreana e a favor dos caprichos financeiros da Rede Globo. Por aqui a polêmica está correndo solta. E de certa forma, a bem da verdade, dá até uma certa melancolia em saber que nosso horário irá mudar... a hora diferente era um dos nossos charmes, o que nos diferenciava dos demais. Sentirei falta... E como se não bastasse, o nosso brilhante democrata, o nobre senador Tião Viana, sempre muito preocupado com as diferenças, depois de aprovada sua lei, reduz toda discussão à seguinte pérola:
"Eu luto contra a desigualdade dos horários. Como meu projeto foi aprovado ao mesmo tempo que surgiu esta confusão nos horários das tevês, estão dizendo que o meu projeto estaria criando a confusão. Pelo contrário, o meu projeto vai diminuir a confusão, porque hoje está de um jeito nesse horário louco que, quem é do Acre está gritando gol com duas horas de atraso, quem é de Manaus está gritando com uma hora de atraso e quem é de Brasília grita o gol na hora certa".
É meu amigo, chupa essa mexerica!
14 de abril de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, (con)fuso e escrivinhador nas horas vagas
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pela Manézona. Direto da terra das chegadas e partidas, dos encontros e desencontros, do PT ou não PT... por aqui o meio termo não tem vez.
Meus caros e caras, a experiência de viver longe dos seus é muito enriquecedora. Cresce-se a passos largos e, me permitem essa vaidade e que me perdoem os fracos, tem que ser forte. Eu diria, parodiando o seu Sabá, que fraco eu não sou não, mas forte também... Ha! Ha! Ha!
No momento da distância de suas referências, você é obrigado a tomar a sua vida pela mão e dizer a ela: "Agora é só nós dois. Seremos eternos responsáveis pelo o que nos causarmos. Ó, pra ser feliz vale tudo viu: só não vale puxar o cabelo e dedo no olho." Ai segue o seu caminho, trombando quase sempre, mas seguindo. É claro que pra isso você não precisa necessariamente se mudar pro Acre. Você pode tomar sua vida (ou não) em qualquer lugar... seja logo ali ou a 4 mil km de casa. O diferencial talvez do estar longe é que você vai criando laços de família. Isso mesmo, sem aspas. Aos poucos você vai criando vínculos de amizades intensos que acaba criando uma nova família... isso quando não é adotada por outra. Aqui no Acre, grande parte dos meus amigos queridos, é de fora também. Muitos com histórias semelhantes de vida, recém formados, com vontade de conhecer outros mundos e tocar a vida. Essa gente toda se junta e forma a família acreana. Dentro dessa miscelânea de origens tão diversas, os papéis vão se invertendo: ora você é o irmão pirrão, ora é o pai carinhoso, ora é a mãe brava, ora é o filho distante. Cada um vai assumindo o papel que precisa para cada momento. E como toda a família, existe também as despedidas. Por exemplo, a minha família acreana já contou com o Sandovaldo, um piauiense comédia toda vida, tão cabeçudo como eu. Tinha também a Giovana e o Fabiano, ela paulista de São Bernardo e ele candango de Brasília. Teve a Renata agrônoma de Botucatu. A Mariangela e o Alberto, o casal Sol e Lua e suas histórias de vida surreais e amigos do peito. Já teve a Claudinha e o Miguel amigos queridíssimos do meu coração, ela bióloga e ele filósofo baiano (isso mesmo, existe!). O Amaral, um colega de profissão com quem aprendi muito, seja em ética, em coração ou em técnica, que não deve ter idéia da admiração que tenho por ele e do amigo que o considero. Teve também a Priscila, um doce de pessoa com quem lamento não ter tido um contato maior. Contou com a Cris, o Ricardo e o Samuel, família do meu coração onde o astro é o Samuquinha, que foi dormir por esses dias e falou pra Cris "Mamãe, vou imitar o tio Felipe dormindo". E começou a ressonar (porque como todos sabem, eu não ronco!). Ainda contou com a Nayara, uma curitibana ponta firme e de risada gostosa. Hoje eles tocam suas vidas distantes do Acre, mas já experimentaram as delicias e agruras do aquiry.
Muito desse núcleo familiar foi formado em volta da Casa da Melancia, onde minha amiga Dri mora. Melancia é por causa das cores da casa onde, aliás, as festas eram famosas por Rio Branco. A Dri, é uma espécie de aglutinadora de toda a turma... ela faz meio que o papel da mãe. Teve uma época, que a impressão que dava, era que todas as pessoas que chegavam ao Acre, passavam pela casa Melancia para serem acolhidos por ela e por todos (na época eu chamava de pensão Melancia... ela não gostava!). Uns ficavam pra família, outros se dispersavam, mas todos chegavam atrás de referências, amizades e companhias na cidade nova. E isso tudo só aconteceu, muito por causa da generosidade e a capacidade de agregar as pessoas que a Dri tem. No entanto, hoje é a vez dela de ir embora. Ela conheceu um cara ai (esse Renato me paga!), se engraçou pelo sujeito, vai casar e se mudar pra Curitiba. Ou seja, vai abandonar a família acreana.
Colocando todo o meu ciúme de lado, o jeito é deixar ir né... fazer o que? Cheguei a pensar em correntes, ameaçar suicídio, trancar a porta e jogar a chave fora, mas acho que não daria certo. O jeito é engolir o orgulho, anotar o nome do Renato no meu caderninho negro e deixar a Dri ir.
Minha querida amiga, você vai e deixa um órfão no Acre (sua desalmada...hehehe). Obrigado pelas broncas, pelo carinho e pelo apoio no episódio mais difícil da minha vida. Obrigado sempre pela mão estendida... nos meus sonhos, os anjos são acolhedores e generosos como você. Te amo viu....
P.S. Mas que o Samuquinha sempre preferiu o tio Fe é evidente....
18 de março de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, amigo da Dri e escrivinhador nas horas vagas e-mail: felcm40@hotmail.com
Quem cuidará dos cardioglifos? (Diário de um Acreano 52)
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pelo meu novo pai Marcelo, modelo 2008, recauchutado e sem cigarro! Os heróis podem até ser falíveis, mas são sempre imortais! Te amo meu velho. Direto das terras geoglifadas da Amazônia calva. Aliás, falando em calvície, o desmatamento vai crescendo e o governo vai tropeçando! Vocês já perceberam que a Amazônia só é tratada no Palácio do Planalto em reuniões de emergência a cada número do INPE? Como se assunto novo fosse... e pelos resultados dessas reuniões eles vivem querendo reinventar a roda. A solução pensada na última é colocar a Policia Federal pra combater o desmatamento e as queimadas. EUREKA! Aproveita e traz o BOPE também!
- DE QUEM É ESSE DESMATAMENTO? POW!
- Não sei não senhor seu capitão!
- DE QUEM É ESSE DESMATAMENTO? POW! CHLEP!
- Não sei não senhor seu capitão!
- O ZERO2 TRAZ AQUELE JATOBÁ PORQUE ESSE FANFARRÃO NÃO TÁ QUERENDO COLABORAR.
- Sim Senhor! Mas capitão ele parece ser inocente. Só tava pescando.....
- AH É? PÕE NA CONTA DA MARINA...O JATOBÁ ZERO2!
HA! HA! HA! Tropa de elite osso duro de roer, se tu desmatar geral, o jatobá vai em você! HA! HA! HA!
E você acha que acabou por ai? Proibiram também nos 36 municípios da Amazônia que mais desmatam a emissão de autorizações legais de desmate pelo órgão ambiental.
- Mas capitão pera lá: se 95% do desmatamento na Amazônia são os desmatamento ilegais, proibir os desmatamentos legais vai resolver algumas coisa?
- O ZERO 6 ISSO É ESTRATÉGIA SEU MOLEQUE. Em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie. em inglês strategy...
HA! HA! HA! AGORA VAI ALBERTO! HA! HA! HA!
Meus amigos, enquanto os bancos financiarem 60 mil vezes (é isso mesmo!) mais projetos de pecuária e agricultura extensiva na Amazônia do que para projetos sustentáveis, como manejos florestais madeireiros ou não, a floresta vai cair. O resto é engodo. Aliás, é banco público viu, ou seja, somos nós que estamos financiando o corte raso na Amazônia. Política de repressão pura e simples é tentar mostrar serviço na TV pra você acreditar. E ai? Vai engolir mais essa? Às favas todas as verdades mentidas.
*
Meus caros e caras, depois de algumas longas linhas versando sobre Brasil, mundo, dores e amores, hoje volto a falar do meu Estado querido. Afinal de contas, enquanto o beijo durar, o tempo curar e a alma existir, todos os amores serão possíveis... e falíveis.
Mas como ia dizendo, discorrerei hoje sobre o Acre e suas curiosidades antropológicas. Isso mesmo, o Acre é um estado arqueológico. Imaginem vocês que com o avanço do desmatamento na fronteira entre o Estado do Acre, Rondônia e Amazonas a partir da década de 70, começaram a aparecer formas geométricas, como quadrados, hexágonos, círculos e losangos cravados na terra (tem fotos no final da crônica). Já tive até o prazer de fotografar um em um sobrevôo. Segundo alguns antropólogos os primeiros indícios mostram que são estruturas de terra formadas por ancestrais indígenas que habitaram a Amazônia até o século XII depois de Cristo. São chamados de geoglifos. Não se sabe exatamente para que serviam essas estruturas, mas imaginam que poderiam estar ligadas a sistemas agrícolas, cultos religiosos ou até de defesa. Mas com certeza, essas descobertas colocam alguns pontos que andei pensando cá com meus botões (como andam me ouvindo!) que dizem muito da natureza humana e das questões que a História esqueceu.
O primeiro ponto mostra que os nossos arborícolas eram muito mais avançados do que imaginávamos. Até agora, na América do Sul, as sociedades que se destacaram no passado são as sociedades que se desenvolveram nas Cordilheira dos Andes (os Incas, por exemplo). Essas descobertas, mostram que os antigos moradores de onde hoje costumamos chamar de Amazônia, eram muito mais do que simples coletores de frutos e folhas. Os geoglifos encontrados mostram uma inteligência e uma técnica mais apurada do que acreditávamos.
O segundo devaneio que venho matutando é em cima de uma tese do professor Carlos Walter que afirma que a floresta amazônica que conhecemos hoje, com grandes florestas e a maior megabiodiversidade do mundo, é fruto também da presença humana. Estudos mostram que o homem já povoava essas bandas quando essas bandas eram apenas savanas, ou seja, com uma vegetação incipiente e “rala”, justamente na época de construção desses geoglifos. Ou seja, a floresta como conhecemos hoje é fruto também da presença humana.... homens e mulheres estavam presentes enquanto a maior riqueza biológica do planeta se formava. Ou seja mais ainda, a Amazônia é um pomar humano (ai como sou exagerado!). Tanto que o professor Carlos costuma chamar essa mata toda de Floresta Equatorial Ombrófila e Cultural Amazônica. A verdade é que o homem nem sempre foi nocivo a floresta e a Amazônia é muito mais do que “apenas” a maior riqueza biológica do planeta. Ela também é uma floresta de gente.
A outra questão que me passa é mais filosófica (filosofia de botequim, que fique claro) e foi pensada bebendo cerveja. Abro parênteses: vocês já perceberam que a cerveja nos redime de tudo? Irei expor uma bobagem a seguir, mas como já disse que estava bebendo, eu to perdoado. Né não? Se eu falar algo brilhante, sou um gênio. Se for uma asneira completa, vai ter sempre um que lembrará “mas ele tava bêbado né, vamos dar um desconto”. Aproveito o ensejo, pra revelar que só escrevo bebendo, ou seja, me dêem SEMPRE um desconto. Fecha parênteses. A história da humanidade com o planeta é uma eterna construção e desconstrução. Cada geração de novos homens e novas mulheres deixam suas marcas. Constantemente grafamos e re-grafamos a terra apagando e deixando cicatrizes para o futuro. E essa será nossa eterna busca em entender o passado e sua importância, em estudos que podem duram mais de uma geração de pesquisadores. Mas o que me intriga mais são as histórias e estórias que a História não conta. Nem tudo que se “veve” na vida é grafado na terra e deixa rastros pro futuro. São histórias pessoais de homens e mulheres que morrem juntos com suas vidas e seus corações. Afinal, meu caros e caras, quem cuidarão dos cardioglifos? Quem se debruçara sobre as histórias dos sentimentos. Onde estarão as histórias dos amores mal curados, dos prazeres sentidos, da gargalhada gostosa, da inveja humana, dos carinhos consentidos e do afeto primordial. Onde estão registrados os amores e desilusões de Joana D’arc? A quem interessaria as histórias das pessoas? Pra Jorge Amado o que era mais importante: ter escrito Capitães de Areia ou o seu amor por Zélia Gattai? A história nos rodeia de conquistas épicas, sucessos estrondosos, fracassos retumbantes, mas não nos mostra o que passava no coração do Napoleão. Longe de mim essa soberba, mas quem se importará pelas histórias que escrevo? Por que o que fica para o depois é o diploma, os artigos científicos, o mestrado, o doutorado, o seu trabalho do dia-dia registrado e grafado nos anais burocráticos da nossa sociedade de feitos? Quem será o desocupado que irá pegar o que escrevo no futuro e contar as histórias que me faziam rir, chorar, lembrar, amar e doer? A quem interessa o que vivemos ou deixamos de viver? Quem se importa com as suas amarguras, suas piadas, sua história de vida pessoal? Afinal de contas, venha cá Poetinha, quem pagarão o enterro e as flores se eu me morrer de amores?
* Disse que iria falar só do Acre e acabei falando também de sentimentos e lamentos. Vai ver que são tudo parte de uma mesma coisa... não é mesmo?
7 de fevereiro de 2008 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, arqueólogo de mim mesmo e escrivinhador nas horas vagas
Ah! Eu, o Vinicius e o Tadeu, fizemos o blog dos picaretas. Lá comentamos sobre tudo e todos (necessariamente nessa ordem). Enfim, somos uma horda de calhordas, com fins lucrativos e especulativos, que resolveu espalhar ao mundo nossas mal traçadas linhas, expondo a ressaca humana, cívica e amoral que nos acomete... dêem uma passada por lá e nos avacalhe se puder e se culhão tiver. Ele é atualizado diariamente ou quase isso (sim, somos vagabundos também) www.picaretasdatavola.blogspot.com
"Não se afobe, não /Que nada é pra já Amores serão sempre amáveis / Futuros amantes, quiçá Se amarão sem saber / Com o amor que eu um dia Deixei pra você"
Chico Buarque
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido pelos portadores de alto teor etílico no sangue. E mais um Natal se vai e junto sua febre consumista contestável que nos assola todos os anos, onde cada vez mais percebo, em meio a tanta quinquilharia de todos os tipos, quanta coisa que eu não preciso pra ser feliz. E o diário chega aos 51, cambaleando mas seguindo em frente. Aliás, vocês sabem como se divide 51 em dois? Meio litro pra cada pinguço. HA!HA!HA!
* O Francisco era um homem comum. Era jovem, algo em torno de 30 anos, com uma vida relativamente boa, um trabalho que ele gostava muito e que lhe trazia estabilidade financeira, o que afinal, era muito importante pra ele uma vez que sempre procurou segurança, seja profissional ou pessoal. Aliás, suas relações sempre primavam pela segurança com que podia "dominar" a situação. Na vida particular, não era adepto a grandes rompantes. Prezava sua liberdade, mesmo não sabendo o que fazer com ela. Orgulhava-se e dizia em voz alta que não tinha ciúmes. Gostava dos momentos de estar sozinho, seguindo por rumos na vida que o transformou em um sujeito solitário. Era um boa praça que zelava pela sua intimidade, não se abrindo muito para os outros. Cultivava uma espécie de egoísmo d'alma que o permitia ser sociável, sempre com um bom ouvido pra dar atenção ao outro, mas sem se abrir a quem quer que seja. As pessoas com que abria sua intimidade eram bastante selecionadas, e ainda sim, com resalvas. Tinha poucos mas grandes amigos que não desistiam dele, apesar de muitas vezes não saber regar esses tesouros. Jamais soube amar.
A Cecília era também uma jovem mulher com uma vida independente e muito boa. As semelhanças com Francisco acabavam aqui. Era uma pessoa alegre, pulsante e vibrante. Sempre com um pedaço de vida na manga pra colocá-la em movimento. Sempre. Cultiva amigos na mesma velocidade com que conhecia pessoas. Na vida pessoal era intensa e densa. Não desperdiçava um grande amor. Mesmo quando perdida na avenida, era dura na queda.
Quis a vida que os dois um belo dia se cruzassem. Aliás, depois de uma série de coincidências, só podiam se conhecer mesmo. A amiga com quem Cecília morava, morou com a irmã do Francisco em Bruxelas uns tempos atrás, além do cunhado dela trabalhar com ele. Enfim, dessas boas tiradas do destino que reforçam que o mundo é no máximo um pouco maior do que uma laranja lima.
A Cecília começou a movimentar a vida do Francisco e ele gostou disso. Com ela, ele era uma pessoa melhor. Ela o fazia ser melhor e ele buscava isso. O relacionamento dos dois baseava-se no bom humor e nos gostos em comum. É claro que ele não suportava o U2 e nem sabia que o Sting (aquele dos índios) tinha uma banda chamada Police, mas de resto, tinham as mesmas preferências. Segundo rumores, na boca pequena, dizem que o Francisco se apaixonou pela Cecília quando numa conversa sobre decomposição do plástico na natureza ela dizia...
- O plástico na natureza para decompor demora um tempão. - Realmente. Só pra constar: são 100 anos o tempo que leva. - Viu só, se pra constar são 100 anos imagine pra decompor. HA! HA! HA! Tirada sensacional, dizia Francisco.
Era um relacionamento leve, gostoso de se levar. O Francisco inclusive aprendeu o que era o ciúmes e viu que se bem dosado, pode ser sim o perfume do amor. No entanto, o Francisco, solitário que sempre foi, não entendeu o que era um relacionamento. Talvez nunca tivera um relacionamento que o exigia tanto como aquele. Exigir no sentido de sua própria entrega. Ele havia ido no limite de sua capacidade de doar-se ao outro. Mas, infelizmente, não era o bastante para Cecília. Afinal de contas, quem quer alguém que não seja por inteiro? Por achar que o relacionamento o faria perder sua liberdade, vejam só, acabou ele preso em um sentimento incompleto, onde não conseguiu se entregar, apesar do amor que sentia por Cecília. A comparação que ele fazia era como se fosse um escafandrista que não conseguia trazer a tona o tesouro tão procurado. Cecília fez com que Francisco mudasse sua vida e ele não soube o que fazer com ela.
Essa historia não faz questão de ser nada, talvez nem fim ela tenha. É apenas o relato de uma história de amor, que talvez seja igual a tantas outras, mas que pretende apenas mostrar o quão importante é se permitir. O Francisco tirou como lição que é preciso amar e se deixar amar, além de cuidar do seu amor... seja ele quem for.
Esse diário é dedicado a Pimentinha e a todos que se permitem
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." Clarice Lispector
ATENÇÃO! ATENÇÃO! Mais uma do diário mensal mais lido nas beiradas do Brasil. Direto da minha terra acreana querida. E o fanfarrão que vos fala comemora o número 50 de seus diários, ou seja, 50 meses de cidadania acreana com direito a pé rachado e tudo. Marrapaiz!!!! E, meus amigos, como a vida muda 50 vezes depois... passando os olhos nas crônicas que vivo os apurrinhando a cada mês vejo como não sou mais o mesmo (graças a Deus!), como a barba cresceu, a barriga também e a vida já é outra... Mas como todo pseudo nômade que se preze, cada vez mais que fico no Acre, mais vejo que vem chegando a hora de ir. Um dia as cortinas se fecham... * Mudando um pouco de assunto, vocês viram o anúncio da Petrobras? Agora somos a nova meca do petróleo. O Lula já tá querendo ir pra OPEP. Mas calma lá, não to entendendo: não éramos o país do etanol, o "combustível ecológico"? A onda agora é o petróleo de novo? Ah tá! O projeto mudou... "O etanol foi ali e volta quando petróleo acabar". O discurso "ecológico" era oportunista. Desculpa pessoal, é que sou inocente mesmo... às vezes a ficha demora a cair. Prometo ficar mais atento da próxima vez. * E no último diário fui me arriscar a dar uns sacodes no amor, e o que aconteceu? Em menos de um dia recebi uns 10 e-mails comentando a minha ousadia. A minha mãe foi logo me ligando revoltada...
- Tu trata de ressuscitar o amor e tome vergonha na cara - Mas mãe, eu.... - Da onde já se viu moleque desse jeito e não acredita no amor. Não foi essa educação que eu te dei não. Todo mundo leu aquilo. O que que a Lena vai dizer, hein? - Mas mãe, olhe pelo o humor.... - Humor é piada de papagaio e de português... deixa só chegar o natal pra eu te dar umas palmadas menino. - Mãe, tem gente lendo.... - Ai meu Deus! Onde foi que eu errei? * Fora isso venho recebendo também outras criticas implacáveis dizendo que não escrevo mais sobre o Acre. O tio Paulo já não me perdoa mais por não falar sobre o Acre. Sabe o que é tio, venhamos e convenhamos, o país de vocês anda muito mais engraçado do que o nosso protetorado aqui. Por aqui continuamos na mesma: o "Governo da Floresta" plantando cana de açúcar e explorando petróleo na floresta, ex-deputado e seu filho presos por ameaçar de morte desembargador, eleição de sindico é noticia de TV... enfim, tudo na mesma. Ah! Mas pera lá! Temos novidades sim... como ia esquecendo: Rio Branco está entre as 18 cidades que poderão receber jogos da Copa do Mundo de 2014. Marrapaiz! É o Acre mais uma vez na tentativa de galgar vôos mais altos dentro da federação brasileira. A minissérie acabou, a marola passou e a mais nova fanfarronice do governo é a Copa de 14 vejam vocês. Seremos a capital ecológica da Copa! Mas é bom vir logo porque do jeito que anda, teremos pouca ecologia pra comemorar... não dá pra ser a Copa de 2010 não? * Mas o fato é que estamos chegando a mais um final de ano e dessa vez não vou desejar boas novas não. Minha contribuição com esse final de ano marrom que estou tendo, vai ser levantar algumas perguntas para que entremos no próximo ano refletindo. Se não servir pra refletir que seja pra aporrinhar mesmo... Como ninguém está preocupado em responder nada, assim como eu, faço o meu papel de perguntador, que eu adoro (que o diga o pessoal da Geografia...). E como perguntar é um exercício coletivo,contei com algumas contribuições valiosas de alguns conhecidos. Afinal de contas perguntar não faz mal... ou faz?
É por isso que insisto: Papai Noel existe? E o Lula? O PT tem jeito? Lula é igual ao Efe Aga Cê? Qual a diferença entre o PT e o PSDB? Seis é meia dúzia? Corrupto do passado é corrupto sempre? O operário sindicalista hoje é um presidente elitista? Qual é o preço do poder? A coerência se deu mal? O Lula tem consciência ambiental? E a Marina? A Marina é fiel ao PT ou ao meio ambiente? O que pensa a Dilma Roussef sobre a Amazônia? O que pensa Dilma Roussef sobre democracia participativa? Aliás, o que pensa Dilma Roussef? Qual a diferença entre o Renan Calheiros, o homem do Collor e José Dirceu, o homem do Lula? Honestamente, o PSDB é oposição? O PMDB não sai de cima? O PFL é Democrata? Quem é que tá mandando lá no alto: ACM ou Deus? Uai, ACM tá lá no alto? O Genoino é genuíno? E agora José? A direita elitista e rancorosa é igual a esquerda cínica e vendida? Quanto mais tudo muda, mais tudo fica a mesma coisa? Suas idéias correspondem aos fatos? Se o Bush intervêm no mundo todo, eu posso votar pra presidente dos Estados Unidos? Quem é que tá no volante do planeta? Pra onde vai o amor, quando o amor acaba? A nossa classe política é um espelho do que nós somos? Se cultuamos nossos malandros, porque a "intolerância" com nossos políticos? Nós somos intolerantes com os nossos políticos? Somos um país de malandros? Você é um fanfarrão? Belem-belem nunca mais estou de bem, até o ano que vem? Pagar pra aluno passar de ano e a solução? E se o professor reprovar o Chambinho, aquele gente boa que vende a branquinha da maior qualidade no recreio e que sempre foi amigo dos amigo? Afinal de contas, professor no Brasil tem culhão ou não? Quem foi responsabilizado por Balbina? Quem se responsabilizará pelo Madeira? Porque reclamaram tanto dos cuidados ambientais do IBAMA em relação as hidrelétricas do Madeira, atrasando o Brasil? Alguém reclamou que o leilão das hidrelétricas já foram canceladas várias vezes? O IBAMA e o meio ambiente atrasam o Brasil? Porque os grandes capitais sempre ganham a opinião pública? Temos uma "opinião pública" ou "opiniões privadas"? Você é um formador de opinião? O Ministério da Agricultura quer destruir a Amazônia? Aliás, alguém quer salvar a Amazônia? Pau que nasce torto nunca se endireita, menina que requebra mãe pega na cabeça? O Al Gore é demagogo? Porque será que quando o IBAMA melhorou sensivelmente ele foi dividido? Pesquisar potencial hidrelétrico em Unidades de Conservação na Amazônia é só por curiosidade? Pra bom entendedor pingo é letra? O sujeito politicamente correto é o que faz política com a sua moral? Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu? Se o Plácido for aceito como homossexual deixa de ser "nosso" grande herói acreano? Reserva Biológica é latifúndio genético? Reserva Extrativista é assentamento do INCRA? Porque a política ambiental do atual governo é tão policialesca como qualquer outro anterior? Fiscalização ambiental vai salvar a Amazônia? A fumaça que cobre Rio Branco no verão é da Bolívia, do Mato Grosso, de Rondônia ou do Acre mesmo? Hoje é festa lá no meu apê, pode aparecer, vai rolar bunda lê-lê? O P da CPMF quer dizer permanente? Algum imposto criado já deixou de existir? Tropas de Elite são a solução? Qual é a solução? Porque o medo de se discutir a legalização das drogas? Afinal de contas, quem é que ganha dinheiro com isso? Se alguns biólogos são biocratas, alguns geógrafos são geocratas? Saber amar é saber deixar alguém te amar? Eu tenho jeito? Quando é que a coisa desandou? Somos todos vitimas de um grande amor? Se o Sol ensolará, a Lua alumiará? Chico Buarque é o gênio da raça? O poetinha era um poetão? Casa de Oscar é igual música de Tom? Maria Rita imita Elis Regina? Qual a diferença entre É o Tchan e os Detonautas? Bunda é cultura? Se todo poeta é um fingidor, todo cronista é um enganador? Como é que faz pra fugir de você mesmo? O Joel Santana renovou com o Flamengo pra disputar a Libertadores. Algum flamenguista tá feliz com isso? Um time que ganha 5 títulos é penta? Porque o Flamengo não é? O Dunga é o Zangado? O senador Siba Machado tá de sacanagem? Quanto custa ao governo do Estado a imprensa acreana? Liberdade de imprensa é um paradoxo? Petróleo e cana de açúcar combina com o "Governo da Floresta"? Se combina, porque é da Floresta? Em casa de ferreiro espeto é de pau? O Acre é o melhor lugar para se viver? Se o Chico Mendes estivesse vivo subiria no palanque dos seus assassinos como faz o PT agora? No Acre, quem não tem, tá atrás de uma boquinha no governo? Por que os irmãos Viana não se cansam de dar golpes no povo acreano? Eu to de má vontade com o governo? E comigo? Porque eu não paro de perguntar? Quando é que vou começar a responder? Quando é que vamos começar a nos responder?
03 de dezembro de 2007 Felipe Cruz Mendonça Servidor público, perguntador sem noção e escrivinhador nas horas vagas.